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21.5.10

Ajustes estruturais do FMI podem desintegrar a União Européia




Recebido nas bolsas de valores como uma saudável golfada de oxigênio, o compromisso a que chegaram os ministros econômicos da União Europeia (UE) é, ao invés disso, uma verdadeira “catástrofe”, segundo Saskia Sassen.

Para esta estudiosa de origem holandesa, que ensina na Universidade de Columbia e é vista como uma das mais originais intérpretes do processo de globalização, o pacote de “ajuda” acabará alimentando a lógica que causou a crise.

Giulianno Battiston, de Liberazione, entrevistou a autora de Territory, Authority, Rights * [Território, Autoridade, Direitos, sem edição em português] em Bolonha, onde ocorreu a sessão final do Transeuropa Festival, organizado pela associação European Alternatives.

Ela falou sobre a crise atual e os caminhos para superá-la.

P - Qual sua opinião sobre a crise grega e a solução adotada pela União Europeia? Uma resposta necessária ou, ao contrário, um remédio que pode agravar a doença?

R - Trata-se de uma solução financeira para uma crise financeira. Não permitirá sair do cículo vicioso que provocou a crise e, ao contrário, consolida-o.

O pacote adotado apenas prolonga a vida do modelo financeiro. Em cinco anos, nos encontremos na mesma situação. À medida em que se amplia a financerização do sistema econômico – ou em que, como neste caso, se atende suas exigências, as crises tornam-se uma característica sistêmica.

Por isso, penso que o povo grego, que sentiu cheiro de queimado, agiu corretamente, ao se manifestar. A maior parte do dinheiro destinado “à Grécia” não passará por suas mãos, nem provisoriamente.

E não será usado, por exemplo, para criar postos de trabalho. Acabará nos bancos, nas grandes instituições financeiras. O governo grego utilizará os recursos para pedir novos empréstimos.

É uma solução absurda e catastrófica. Revela uma forma extrema de arrogância do poder, além de uma ausência aguda de projetos políticos, por parte dos líderes políticos.

Mais uma vez a Europa, que às vezes se enxerga como possível incubadora de novos paradigmas políticos, parece recorrer a soluções do passado. Decidiu, junto com o FMI, condicionar a ajuda oferecida a países a “ajustes fiscais” extremamente rígidos…

Às vezes, parece que os políticos estão entregues. Que renunciaram ao uso da inteligência para pensar a política e a sociedade. Esta solução é a simples aplicação de um modelo, já adotado nos Estados Unidos de Barack Obama, e que agora pode tornar-se sistêmico.

Também a Europa – que parecia dispor de alicerces mais sólidos, nos confrontos com a lógica financeira, caiu na armadilha do salvamento dos bancos.

Os 27 Estados nacionais da UE decidiram, na verdade, usar instrumentos legais e políticos nacionais para extorquir dos contribuintes recursos para um fundo destinado, principalmente, às grandes instituições financeiras globais.

Num piscar de olhos, tais instituições conseguiram impor à UE, construída a duras penas, peça por peça, durante setenta anos, uma plataforma comum a atingir.

Há muitos anos, quando o neoliberalismo impunha suas regras, eu falava das reestruturações impostas pelo FMI, travestidas de “eficiência”. Agora, percebemos que os “ajustes estruturais”, antes restritos à África, América Latina e países pobres da Ásia, atingem também o Ocidente.

O modelo subentendido neste projeto invadiu também a Europa. Ele destrói as pequenas atividades, empobrece os cidadãos, favorece a desigualdade e produz um “excedente” de população considerada inútil.

Comprometendo, também nos países ocidentais do continente, a capacidade do Estado para promover um desenvolvimento que leve em conta a complexidade social.

Quando escrevermos a história deste período, reconheceremos que se trata de um verdadeiro abuso de poder. Porém, quando se começa a abusar de poder, como demonstram os casos da União Soviética e das ditaduras militares na América Latina, é o começo do fim.

Apesar do “início do fim” e da vulnerabilidade do sistema neoliberal, os movimentos sociais europeus estão paralisados. Alguns parecem em retirada, a esquerda europeia está afônica e não se vêem propostas políticas inovadoras.

Estou convencida de que também a falta de poder, em certas condições, permite “fazer história”. Ela pode tornar-se complexa, quando sentidos políticos antes vistos como estáveis, desestabilizam-se.

Mas como começar? Protestar, dizer ao poder “estamos aqui”, não é mais suficiente. O risco é descair para a dialética hegeliana escravo-senhor, limitando-se a exigir um pouco de poder e liberdade.

A alternativa é “fazer o social”, construir e ressignificar os espaços.
Muitas novidades estão sendo construídas ativamente pelo mundo.
Graças a elas, vai se desenhando uma nova topografia política.

São iniciativas como a economia solidária na América Latina – onde ela já não é uma economia informal, mas um novo uso dos instrumentos econômicos tradicionais, sua reorientação para fins alternativos.

Não se trata de fazer uma revolução socialista, mas de agir, sobretudo onde há estruturas organizativas consolidadas, em planos regional ou local, nas cidades, usando-as para objetivos diversos.

Pode-se fazê-lo descentralizando, distribuindo, reurbanizando, por exemplo. A crise torna as pessoas mais pobres, mas elas, em certos casos, animam-se a desenvolver seus próprios instrumentos de produção.

Pequenos bancos – adaptados necessariamente à dimensão local – podem transformar-se em meios coletivos de produção, mesmo se a propriedade não esteja em sintonia com nossos interesse.

Ou pode-se fazê-lo com a agricultura urbana e regional, com os mercados agrícolas locais, com o trabalho artesanal, com todos os projetos que entram na “economia que tende ao verde”.

Em outros termos, é preciso recuperar a economia parte por parte, re-ancorá-la em nossas necessidades.

Construir, a partir da que há hoje, uma nova, que seja “nossa”, por meio de iniciativas que estão se difundindo e que, mesmo quando parecem incoerentes e sem nexos, desenham uma trajetória precisa.

Não é preciso esperar a emergência de um grande ideal.

Podemos começar modificando as necessidades quotidianas, reorganizando o espaço e a seu significado.

Partir das bases que temos à disposição, sem nos iludirmos com a hipótese de destruir tudo e começar de novo.

É como ocorre um algumas fábricas argentinas ocupadas: espaços totalmente modificados, graças a práticas materiais muito elementares. E, por meio destas práticas, pode-se ressignificar os espaços e dar vida a novas temporalidades, alternativas às do poder.

* Saskia Sassen - Territory, Authority, Rights: From Medieval to Global Assemblages (Princeton: Princeton University Press, May 2006)

Tradução: Outras Palavras
Copyleft - 7/05/210

16.4.10

Finança Global sem luz no fim do tunel


O que o pequeno tremor de ontem (15/4) nos mercados globais

revela sobre a crise econômica, a Europa e as alternativas

Uma onda de pessimismo percorreu as bolsas de valores nesta quinta-feira, como para lembrar que sair da crise financeira exigirá mais tempo (e mais dores) do que se previa em meados do ano passado.

Três dos problemas que afloraram ontem são debatidos em profundidade em textos do Le Monde Diplomatique.


O primeiro é a seriedade da doença que atingiu parte das economias do mundo.

As novas turbulências financeiras foram causadas pelos sinais de que alguns Estados europeus — Grécia, Portugal, talvez Espanha — não suportarão o peso do esforço que fazem para reativar seus sistemas produtivos.

Para rolar suas dívidas, Portugal e Espanha já são obrigados a pagar juros mais altos aos investidores.

Na Grécia, o drama é mais grave. Em desespero, o primeiro-ministro George Papandreou convocou rede de TV em 2/2, para anunciar um “ajuste fiscal” de emergência que cortará salários no setor estatal, reduzirá direitos sociais (como aposentadorias) e serviços públicos (como Saúde).

O arrocho, que visa reservar recursos para pagamento de juros, será fiscalizado pela União Européia — e talvez pelo FMI.


O resultado pode ser uma recessão profunda.

Embora a contragosto, participantes do último Fórum Econômico Mundial, reconheceram que a ação dos Estados continua sendo essencial para evitar que as economias mergulhem mais fundo no abismo da crise.

Le Monde Diplomatique tratou do tema em diversos artigos, nos últimos anos. Em setembro de 2007 e março de 2008, Frédéric Lordon chamou atenção para a gravidade das consequências que adviriam com o estouro da bolha financeira e a possível instalação de uma crise de confiança na economia mundial.

Um segundo aspecto que vale examinar com o Diplô é o sentido real da maior parte das políticas que levaram à criação do euro.


O ataque aos direitos sociais na Grécia revela uma Europa apática, submissa aos valores impostos pelos mercados financeiros, sem coragem para usar seu peso econômico em favor da inovação política.

Tais tendências foram analisadas no jornal por Laurent Jacque (fevereiro de 2009) e Michel Foucher (maio de 2007). O segundo autor não se limita à crítica.


Ele propõe um conjunto de políticas novas, voltadas não a garantir os privilégios dos investidores, mas a promover e ampliar os direitos sociais.

Os novos tremores nos mercados ressaltam, aliás, a importância de continuar buscando alternativas para um novo sistema financeiro e uma nova lógica produtiva.

A este respeito, vale ler o instigante artigo publicado por Jean Marie Harribey, em novembro de 2008. Ele sugere meios para inverter a equação que prevalece no atual drama vivido pelos gregos.

As sociedades, argumenta, devem se mobilizar para que, ao invés de desmantelar serviços, a crise sirva como estímulo a pensar na expansão dos serviços públicos gratuitos.

Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes, com Le Monde Diplomatique