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3.5.10

ACTA - recuos, eufemismos e alternativas


Por Antonio Martins *

Apareceu finalmente a 21 de abril, conforme se previa, a primeira versão pública do ACTA — o acordo internacional de restrição às trocas culturais e científicas que dezesseis países negociam em sigilo, desde 2007.

Nas últimas semanas, a pressão da sociedade civil tornou impossível manter a trama encoberta.

Numa época em que centenas de milhões de pessoas acostumaram-se a compartilhar ideias e bens imateriais pela internet, o acordo previa, nas versões sigilosas que vazaram

- excluir da rede usuários que trocassem arquivos musicais

- proibir os medicamentos genéricos

- autorizar as policias alfandegárias a vasculhar notebooks e celulares, em busca de arquivos “não-autorizados”.

Negociado em segredo por governos e grandes corporações, devido à impopularidade da maior parte de suas cláusulas-chave, ACTA é a sigla, em inglês, de Tratado Comercial Anti-Falsificação.

Por trás destas palavras, esconde-se uma tentativa de frear as novas formas — não-mercantis — de intercâmbio de produtos culturais e conhecimento.

Procura recompor a situação existente antes da internet, quando estas trocas (de música, vídeos ou notícias, por exemplo) requeriam obrigatoriamente um intermediário capitalizado (uma gravadora, um estúdio, um grande jornal).

Como tal intermediação tornou-se tecnicamente desnecessária, o acordo procura reintroduzi-la reprimindo, por meios jurídicos, a circulação direta. Para isso, recorre a medidas que ferem direitos fundamentais do ser humano.

A partir de março, com a aparição do que se preparava às escuras, formou-se rapidamente uma coalizão internacional de grupos da sociedade civil contra a ACTA.

Ela denunciou, em primeiro lugar, a absoluta falta de transparência nas negociações. As pressões pelo fim do sigilo acenturam-se às vésperas da 8ª rodada de negociações do acordo, realizada entre 12 e 16 de abril, em Wellington, Nova Zelândia.

Acuados, os países participantes divulgaram, na sessão final do encontro, uma nota oficial em que negavam parte das versões anteriores do acordo — e pediam mais cinco dias para encerrar o segredo.

Foi o que se deu em 21/4. O texto tem 39 paginas em inglês. Ao contrário das versões anteriores, já não contém, para cada tópico do possível acordo, as diferentes posições dos vários paises. Esta uniformização deve ter consumido os últimos cinco dias.

Também foram excluídos, como se previa, os aspectos que mais atentavam contra direitos e liberdades fundamentais. Diante do vazamanto de suas pretensões iniciais, e da forte reação a elas, os promotores do ACTA parecem ter realizado um recuo estratégico.

Abandonam momentaneamente parte de seus objetivos. Tentam livrar-se do repúdio ao caráter oculto de sua articulação. E, munidos de uma proposta menos rejeitada, procuram colocar-se em condições de retomar o debate.

Poucas horas depois de revelada a versão light da ACTA, já surgiram as primeiras análises, feitas pela coalizão de movimentos que combate o acordo. Uma delas é de autoria de Nate Anderson e está publicada no site Ars Technica. Embora breve, o estudo descreve o essencial.

As cláusulas que mais chocavam a opinião pública estão menos visíveis, mas permanecem na forma de subterfúgios. Um exemplo: já não constam do texto dispositivos como os do projeto de lei do senador Azeredo, que obrigavam os provedores de acesso à internet a tirar do ar usuários acusados (pelas empresas da indústria cultural) de violar propriedade intelectual.

Eles foram substituídos, porém, por cláusulas mais obscuras, que livram os provedores desta obrigação desde que… assumam compromisso com a “adoção e implementação de política para enfrentar ao armazenamento ou transmissão não autorizada de materiais protegidos por copyright”.

A análise de Nate Anderson parece confirmar a impressão que surgiu em 16 de abril, quando os países que negociam a ACTA anunciaram a breve publicação de sua proposta.

À época, o site francês Numerama (também empenhado em examinar criticamente a iniciativa secreta) sugeriu que a estratégia dos partidários do acordo é, agora, legitimar um ambiente favorável a suas pretensões de longo prazo — e construí-las passo a passo.

Isso implica desautorizar e substituir a Organização Mundial da Propriedade Industrial (OMPI), o organismo da ONU encarregado do tema.
Tais informações podem ajudar a definir uma contra-estratégia.

Uma das possíveis razões para a tentativa de desempoderar a OMPI é o fato de ela ter ensaiado, desde 2004, uma tentativa de rever — para melhor — as leis de propriedade intelectual. Lançado por Brasil e Argentina, este movimento institucionalizou-se na forma de uma “Agenda do Desenvolvimento”.

Em janeiro de 2010, por exemplo, na última série de conversações a respeito, o Brasil apresentou oficialmente uma proposta de “exceções aos direitos de patente e limitações à propriedade intelectual”.

A base do projeto é buscar um “reequilíbrio” entre os direitos dos detentores de propriedade intelectual e os do conjunto das sociedades.

A “Agenda do Desenvolvimento” tem sido acompanhada, com razoável regularidade, pelo “Observatório OMPI“, do site Cultura Livre, que publica textos de Pedro Paranaguá.

O exame de seu desenrolar poderia dar início a um processo semelhante ao que começou a se dar, no Brasil, como alternativa ao Projeto Azeredo.

Nesta hipótese, ao invés de apenas denunciar a ameaça da ACTA, parte-se para o contra-ataque — compreendendo e difundindo uma proposta de sentido democratizante.

A mobilização da sociedade civil pode, inclusive, resultar em avanços na proposta alternativa.

O debate em torno da ACTA e das respostas a ela tende a se estender por anos e ganhar espaço cresecente na agenda política mundial.

O recuo parcial dos promotores da proposta permite ganhar tempo. O surgimento, em curto prazo, de uma articulação internacional para defender a livre circulação de conhecimentos, cultura e comunicação demonstra que não há, no horizonte, apenas ameaças…
(21/04/2010)

* Do Le Monde Diplomatique

[Na Biblioteca Diplô, Dossiê ACTA. Além da exposição detalhada do projeto e de seus objetivos, há um conjunto de links para fontes nacionais e internacionais sobre o tema e para a rede de mobilização contra o acordo ]



22.3.10

Mais tecnologia e menos jornalistas - é a crise das mídias


A editora Ringier, o maior grupo de comunicação privado da Suíça e detentora de títulos populares como os jornais Blick, funde suas redações em uma super-redação denominada newsroom.
O plano iniciado em 7 de março é resposta à crise das mídias tradicionais e também à revolução tecnológica.

As empresas de mídia estão sob pressão. Enquanto o número de assinantes e as vendas em banca dos títulos mais tradicionais da Suíça estagnam há anos, somente os jornais gratuitos crescem.

A realidade é que o leitor mudou de rumo, a maioria em direção à internet. "O mundo da mídia muda com uma velocidade avassaladora. As pessoas consomem informação e se distraem de uma forma completamente diferente hoje do que o faziam há três anos", afirma Marc Walder, chefe da Ringier.

Para reforçar suas palavras, o executivo apresenta aos jornalistas presentes na coletiva de imprensa o vídeo do que, em sua opinião, representa o futuro: uma apresentação da revista esportiva americana Sport Illustrated funcionando dentro de um iPad, as futuras pranchetas eletrônicas do fabricante Apple e que mais lembram iPhones superdimensionados.

- A mobilidade é o segredo. Precisamos colocar nossas histórias nos canais corretos, vinte e quatro horas por dia - completa. E para reforçar sua palavra, ele mostra gráficos que revelam como os jornais do grupo Ringier perderam gradualmente leitores nos últimos anos.

Assim fica claro entender que a editora suíça encontrava-se em um grande dilema. Ela anunciou então um grande plano de reestruturação e deu-lhe o nome de newsroom.

Por trás desse enigmático nome, atualmente em voga na mídia anglo-saxã, está uma nova super-redação que reúne os quatro principais títulos da editora - os jornais Blick, Blick am Abend (edição vespertina), Sonntags-Blick (edição dominical) e o portal de informações Blick.ch, o mais popular do país na área de notícias - em um único espaço.

Impulsionada pela crise, a idéia surgiu no verão de 2007. A questão era descobrir como produzir jornal no futuro. Para encontrar a resposta, a editora enviou seus representantes a várias outras redações já integradas no formato de newsroom em algumas capitais européias.

Dentre eles, o Daily Telegraph (Londres) ou o jornal dinamarquês Nordjyske Stiftstidende, onde jornalistas já trabalham de forma coordenada, produzindo ao mesmo tempo informações para o site, jornal, televisão e rádio.

As obras no prédio da Ringier, localizado em um bloco atrás da Ópera de Zurique, começaram em julho de 2009. Um ano depois, as novas instalações estavam prontas: por trás de grandes janelas de vidro, uma redação com 2.500 metros quadrados de área, 250 postos de trabalho, sem muros de separação ou salas individuais, equipadas com modernos computadores e painéis eletrônicos.

Se não fosse o moderno estúdio de televisão, integrado à redação, o visitante incauto até poderia se achar dentro de um grande escritório de banco americano.

Início do projeto

No dia 7 de março de 2010, o Blick deu a largada inicial para o seu projeto de newsroom. Desde então, 200 jornalistas, fotógrafos, técnicos e designers, divididos em sete diferentes editorias - news, política, economia, esportes, people e lazer, lifestyle e a redação de imagem - produzem ao mesmo tempo as 21 mil páginas anuais dos quatro títulos.

Concretamente, isso significa que um redator comum pode preparar sua reportagem de fundo para a edição dominical, mais pesada. Ao mesmo tempo, ele escreve reportagens ou colunas para as edições diárias do Blick.

E parte da sua produção vai para internet, sendo que os meios eletrônicos têm privilégio para o que é atual. "Notícias quentes são colocadas diretamente no site, sempre cumprindo o lema online first, explica Hannes Britschgi, redator-chefe do Sonntags-Blick.

A divisão de tarefas também se tornou mais fluida. Britschgi revela que os jornalistas do Blick também estão sendo incentivados a não se limitar mais só à escrita, mas também utilizar câmaras fotográficas ou de TV, caso haja uma ocasião.

Para exemplificar, Edi Estermann, chefe do projeto newsroom Ringier, aponta uma redatora da editoria people (sociedade), que no momento da coletiva entrevistava no estúdio de TV a modelo suíça Xenia Tchoumitcheva.

- Normalmente essa jornalista só escreve, mas agora está fazendo uma nova experiência. Além de fazer a matéria, ela também exibe a entrevista ao vivo no site do Blick.ch. Isso mostra como esses dois canais saem ganhando - conta com orgulho.

O "sismógrafo" das notícias

As denominações em inglês dadas aos diferentes espaços na nova redação do grupo Blick dão o tom da nova forma de fazer jornalismo. Decision place é o nome do posto de comando, um salão com uma grande mesa em forma de meio círculo, onde sentam os redatores-chefes dos quatro títulos e Marc Walder, como editor responsável.

Os chefes das editorias e outros responsáveis se revezam para ocupar as cadeiras frente às duas mesas, dispostas paralelamente uma a outra frente à mesa em meio círculo.

No centro delas, uma grande mesa oval para as reuniões de pauta, sempre organizadas as 8 e 10 da manhã e às duas da tarde. Frente a eles, um telão gigantesco, cuja principal função é exibir em tempo real estatísticas do site - um sistema chamado de "sismógrafo" - além de um sistema de edição que mostra quais matérias estão sendo preparadas, televisão e também sites da concorrência.

Nos espaços laterais ficam os jornalistas, também chamado content place. Os ilustradores e fotógrafos compartilham o making place. E quando jornalistas, incluindo os redatores-chefes, precisam de tranquilidade nesse ambiente frenético para fazer uma entrevista ou escrever editorais, eles podem ir ao lounge, uma sala em forma de 8 decorada com sofás e mesas e dividido do resto da redação por paredes de acrílico.

25 demissões

Apesar da uniformidade do local, Marc Walder faz questão de dizer que os quatro títulos do Blick irão manter suas próprias identidades. Ele lembra que sempre ouve a frustração de muitos jornalistas com a falta de espaço no jornal para colocar suas boas histórias. "Eles costumavam perguntar se não seria possível escrever também para outros títulos da casa", diz.

Hannes Britschgi lembra que a redação de esporte já trabalha há vinte anos para o Blick e o Sonntags-Blick ao mesmo tempo, sendo que há pouco integrou também o Blick am Abend. "Eles são a prova de que o conceito do newsroom pode funcionar", reforça o redator-chefe.

A insistência explica-se pela insegurança que ainda paira no ar. Mesmo os responsáveis confirmam que pequenas panes ocorreram desde que o projeto foi iniciado em 7 de março. O início coroou também um grande período de nervosismo entre os funcionários da casa. Em setembro de 2009 eles foram obrigados a fazer cursos para entrar no contexto do newsroom.

Dois meses depois, foi anunciado que os chefes das editorias precisariam mais uma vez se candidatar aos seus cargos e concorrer até com profissionais externos.

No total, o projeto teria custado 15 milhões de francos, mas algumas fontes falam de 20 milhões. A nova eficácia também teria o seu preço: 25 pessoas foram demitidas, a metade jornalistas.

Para os sindicatos, newsroom é apenas um plano de corte de despesas. Já Edi Estermann, chefe do projeto, coloca as preocupações de lado. "O trabalho para os jornalistas se tornou mais interessante, mais diversificado. Agora eles têm mais possibilidades. Minha impressão é de que a reação dos meus colegas é muito positiva."

Por Alexander Thoele

Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes, com swissinfo