Por Marcelo Barros *
Nesta quarta-feira (24/2), em todo o Brasil, o Conselho Nacional de Igrejas (CONIC) que reúne oito denominações cristãs, inclusive a Igreja Católica, lançou a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010, com o tema “Economia e Vida”.
O lema vem de uma palavra de Jesus: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6, 24).
Ainda há quem pense que a fé e a espiritualidade nada têm a ver com a organização prática do mundo e com o modelo de economia vigente na sociedade.
Provavelmente, quem acha isso nunca leu profundamente os livros sagrados das diversas tradições espirituais. Especificamente, a Bíblia propõe ao mundo uma nova organização do mundo, baseada em uma economia de justiça e irmandade entre todos os seres humanos.
A fé é como um par de óculos que nos faz ver a realidade sob um novo prisma. Leva-nos a aprofundar jeitos alternativos para vivermos, inseridos na sociedade, o testemunho de um projeto divino para a humanidade e para cada pessoa.
A fim de realizar este “novo mundo possível”, nos unimos em comunidades e exercitamos práticas espirituais. Elas servem como instrumentos metodológicos para aprimorar nossa relação com o Espírito, presente e atuante em nós, nos outros e no universo.
Esta relação deve transformar nossa relação com os outros e com todos os seres vivos.
No mundo antigo, pastores das Igrejas do Oriente denominaram o modo de organizar e administrar este plano divino no mundo com o termo: economia. Na língua grega, oikos e nomos designam a administração da casa.
Assim, a economia é a administração do mundo como uma casa comum a todos, para que toda a família humana possa viver dignamente e de modo solidário e feliz.
Infelizmente, no decorrer dos últimos séculos, a Economia foi aprimorada para garantir a manutenção da riqueza e do lucro nas mãos de uma minoria e relegar dois terços da humanidade a condições de miséria.
“Segundo relatório da Organização das Nações Unidas, ONU, sobre a campanha das metas do milênio, em 2008, os bancos ganharam mais dinheiro do que todas as nações pobres do mundo em 50 anos.
Durante meio século, os países ricos destinaram às nações pobres quatro bilhões de dólares. Só em 2009, as instituições financeiras ganharam nove vezes mais, cerca de 35 bilhões de dólares. Em 2008, 915 milhões de pessoas no mundo passavam fome. A partir da crise econômica, esse número chegou a um bilhão” (texto base da CF 2010, p. 35).
Durante anos, Dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, dizia sua tristeza ao verificar que a maioria dos países mais injustos e responsáveis por essa distorção social é de cultura dita cristã.
O Brasil, país naturalmente rico e com imensas possibilidades de desenvolvimento, ainda ostenta índices vergonhosos de desigualdade e injustiça social.
“Na raiz da desigualdade social, está a concentração de terras nas mãos de poucas famílias ou empresas. Cerca de 3% das propriedades rurais do país têm mais de mil hectares e ocupam 56, 7% das terras agricultáveis, enquanto 48% de famílias pobres não têm um palmo de chão para viver e plantar (Texto base da CF, p. 40).
Em meados de 2009, órgãos competentes calcularam que o salário mínimo real está em 20% do que seria a quantia necessária para atender as necessidades básicas de uma família de dois adultos e duas crianças.
Isso exige de nós um compromisso de solidariedade e ações para transformar esta realidade. A Campanha da Fraternidade propõe várias iniciativas, como incluir, entre os direitos previstos na Constituição Federal, a alimentação adequada para todos, erradicar definitivamente o analfabetismo, combater o trabalho infantil, assim como exigir políticas econômicas redistributivas dos bens e das riquezas, garantidas por leis e efetivadas pelas estruturas do Estado.
Conclama as igrejas e a sociedade a criar e multiplicar bancos de microcrédito e bancos comunitários, na direção de uma economia justa e solidária.
Atualmente, a própria deterioração das condições ambientais mostra que é urgente uma transformação da sociedade na direção da sobriedade e do cuidado uns com os outros e com todos os seres vivos.
A Páscoa é memória da libertação do povo de Israel, celebração da ressurreição de Jesus e profecia de um modo novo de vida para toda a humanidade. Para vivermos felizes esta celebração e ela ter repercussão em nossas vidas, precisamos de uma economia pascal de justiça e solidariedade.
* Marcelo Barros é monge beneditino e autor de 26 livros, dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas". Ed. Rede-Loyola, 2003.
Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes, com Brasil de Fato
17.3.10
16.3.10
Vem aí em 2012 a Super Internet
Só 10 por cento dos endereços IP estavam livres para registro no começo do ano.
A explosão dos celulares e o uso maciço da rede pelo mundo esgotaram os endereços IP.
Um novo protocolo – Ipv6 – foi desenhado para substituir a versão IPv4, a mais usada hoje.
O IPv6 já é usado na China, no Japão e na Índia. Estamos numa fase de transição, e a desigualdade digital entre países ricos e pobres vai aumentar. A primeira reunião do grupo Ipv6 da União Internacional de Comunicações (IUT) aconteceu em Genebra, dia 16 de março.
Uma IP (Protocolo Internet) é um endereço numérico indispensável para acesso à internet. “É um código de entrada. A cada computador se atribui um único endereço IP”, explica à swissinfo Rosa Delgado, vice-presidente da Internet Society (ISOC) da Suíça.
- Em 1975 foi criada a internet e começou o registro de enormes quantidades de endereços para governos e empresas. A internet se popularizou cada vez mais. Nos anos 90 ficou claro que o protocolo IPv4 não era suficiente. Na mesma década também foram criados os domínios .com, .net e .org. A internet cresceu muito rápido”, diz Rosa Delgado.
A partir de 2000 o mundo pedia endereços IPv4, principalmente China, Índia, Brasil Até aí os Estados Unidos eram os maiores consumidores de endereços IP. No entanto, não se levava em conta a explosão da telefonia móvel. “Os países citados deixaram de ser emergentes. A China já tem agora o maior número de usuários de internet”, revelou Rosa Delgado.
História do IPv6
A Internet Engineering Task Force (IETF) promoveu em 1995 o novo protocolo de internet IPv6. “Uma nova solução que os Estados Unidos e os países desenvolvidos não queriam e não necessitavam. Os Estados Unidos frearam a implantação do IPv6. Seu alto custo também era uma dificuldade adicional. China e Índia começaram a utilizá-lo e em 2000 foi adotado pelo Japão, que começa a migrar seus sistemas com apoio da China e da Índia. Na Ásia, começam a migração para o IPv6 por conta própria”, analisa a especialista.
Um pouco depois, entre 2004 e 2006, os Estados Unidos e a Europa se abrem ao novo protocolo. Em 2008, o governo norte-americano decide migrar para o IPv6. Todas a administração e as empresas estatais já trabalham com essa nova versão de internet. “Inclusive as entidades públicas dos Estados Unidos têm que justificar o uso do antigo protocolo IPv4. Isso obrigou todas as empresas a passarem para o IPv6 para poderem se comunicar com o governo”, explica Delgado.
Na Europa, cada país toma sua decisão. A Espanha instalou o IPv6 em 2002 em uma rede de universidades. A União Europeia (UE) queria estimular o novo protocolo através de incentivos econômicos, mas não pode obrigar os Estados Unidos a generalizar a inovação. Para complicar, tudo está nas mãos das grandes operadoras de telecomunicações, que não querem investir na ausência de clientes potenciais.
Até 2004, a maior parte dos endereços em IPv6 estava na Ásia. Os Estados Unidos começam a recuperar o terreno perdido. Na América do Sul, Brasil, México e Argentina marcam pontos com o novo protocolo. Em 2005, foi criada na China a maior rede do país para conectar as universidades nacionais. Uma rede dessas dimensões não teria sido possível com o IPv4, pela grande quantidade de endereços IP que o projeto pedia, aponta Rosa Delgado.
Fosso digital aumentará
Atualmente se esta em fase de transição mundial para o IPv6. Essa fase começou em 2000 e vai se prolongar por quinze anos, mesmo que ainda não seja palpável. É como a passagem da telefonia fixa para a telefonia móvel.
O IPv6 tem melhor infraestrutura, facilita o acesso a celulares e novas aplicações, além de ser mais seguro.
O IPv6 permite um volume de números muito maior do que o atual. Por outro lado, a versão IPv4 está muito mais limitada e permite um acesso menor aos novos serviços. “As novas aplicações já são desenvolvidas para o novo protocolo, para redes peer-to-peer (P2P), que funcionam sem servidores fixos. Por isso é preferível acabar com os antigos sistemas, pois seria muito caro adaptá-los à nova infraestrutura mundial”, avalia.
Essa migração levará mais tempo nos países desenvolvidos e eles estarão desconectados de internet por algum tempo. Os novos sistemas pensados para o IPv4 exigem grandes investimentos em infraestrutura. Por que não fazê-lo com o novo protocolo, pergunta Rosa Delgado.
Os países em vias de desenvolvimento podem ficar fora dessa mudança, como já ocorre com a conexão internet. Como não dispõem de capacidades técnicas, o fosso digital será ainda maior. “É preciso pensar no que se pode fazer para reduzir esse fosso.”
Características do IPv6
- Permite maior espaço de direcionamento, segurança, autoconfiguração e mobilidade.
- Infraestrutura de endereços de maneira mais eficaz e hierarquizada.
- Mobilidade
- Segurança Integrada
- Capacidade de ampliação
- Qualidade de serviço
- Velocidade
Na década de 70 os autores do protocolo versão IPv4 se basearam num sistema de 32 bits que podia gerar mais de 4,2 trilhões de endereços. Isso não cobre a atual demanda. No IPv6, os endereços passam de 32 para 128 bits. Especialistas prevêem que os endereços IPv4 ainda não registrados acabam até 2012. IPv4 e IPv6 são incompatíveis. As páginas web visíveis numa versão não aparecem na outra.
Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes
A explosão dos celulares e o uso maciço da rede pelo mundo esgotaram os endereços IP.
Um novo protocolo – Ipv6 – foi desenhado para substituir a versão IPv4, a mais usada hoje.
O IPv6 já é usado na China, no Japão e na Índia. Estamos numa fase de transição, e a desigualdade digital entre países ricos e pobres vai aumentar. A primeira reunião do grupo Ipv6 da União Internacional de Comunicações (IUT) aconteceu em Genebra, dia 16 de março.
Uma IP (Protocolo Internet) é um endereço numérico indispensável para acesso à internet. “É um código de entrada. A cada computador se atribui um único endereço IP”, explica à swissinfo Rosa Delgado, vice-presidente da Internet Society (ISOC) da Suíça.
- Em 1975 foi criada a internet e começou o registro de enormes quantidades de endereços para governos e empresas. A internet se popularizou cada vez mais. Nos anos 90 ficou claro que o protocolo IPv4 não era suficiente. Na mesma década também foram criados os domínios .com, .net e .org. A internet cresceu muito rápido”, diz Rosa Delgado.
A partir de 2000 o mundo pedia endereços IPv4, principalmente China, Índia, Brasil Até aí os Estados Unidos eram os maiores consumidores de endereços IP. No entanto, não se levava em conta a explosão da telefonia móvel. “Os países citados deixaram de ser emergentes. A China já tem agora o maior número de usuários de internet”, revelou Rosa Delgado.
História do IPv6
A Internet Engineering Task Force (IETF) promoveu em 1995 o novo protocolo de internet IPv6. “Uma nova solução que os Estados Unidos e os países desenvolvidos não queriam e não necessitavam. Os Estados Unidos frearam a implantação do IPv6. Seu alto custo também era uma dificuldade adicional. China e Índia começaram a utilizá-lo e em 2000 foi adotado pelo Japão, que começa a migrar seus sistemas com apoio da China e da Índia. Na Ásia, começam a migração para o IPv6 por conta própria”, analisa a especialista.
Um pouco depois, entre 2004 e 2006, os Estados Unidos e a Europa se abrem ao novo protocolo. Em 2008, o governo norte-americano decide migrar para o IPv6. Todas a administração e as empresas estatais já trabalham com essa nova versão de internet. “Inclusive as entidades públicas dos Estados Unidos têm que justificar o uso do antigo protocolo IPv4. Isso obrigou todas as empresas a passarem para o IPv6 para poderem se comunicar com o governo”, explica Delgado.
Na Europa, cada país toma sua decisão. A Espanha instalou o IPv6 em 2002 em uma rede de universidades. A União Europeia (UE) queria estimular o novo protocolo através de incentivos econômicos, mas não pode obrigar os Estados Unidos a generalizar a inovação. Para complicar, tudo está nas mãos das grandes operadoras de telecomunicações, que não querem investir na ausência de clientes potenciais.
Até 2004, a maior parte dos endereços em IPv6 estava na Ásia. Os Estados Unidos começam a recuperar o terreno perdido. Na América do Sul, Brasil, México e Argentina marcam pontos com o novo protocolo. Em 2005, foi criada na China a maior rede do país para conectar as universidades nacionais. Uma rede dessas dimensões não teria sido possível com o IPv4, pela grande quantidade de endereços IP que o projeto pedia, aponta Rosa Delgado.
Fosso digital aumentará
Atualmente se esta em fase de transição mundial para o IPv6. Essa fase começou em 2000 e vai se prolongar por quinze anos, mesmo que ainda não seja palpável. É como a passagem da telefonia fixa para a telefonia móvel.
O IPv6 tem melhor infraestrutura, facilita o acesso a celulares e novas aplicações, além de ser mais seguro.
O IPv6 permite um volume de números muito maior do que o atual. Por outro lado, a versão IPv4 está muito mais limitada e permite um acesso menor aos novos serviços. “As novas aplicações já são desenvolvidas para o novo protocolo, para redes peer-to-peer (P2P), que funcionam sem servidores fixos. Por isso é preferível acabar com os antigos sistemas, pois seria muito caro adaptá-los à nova infraestrutura mundial”, avalia.
Essa migração levará mais tempo nos países desenvolvidos e eles estarão desconectados de internet por algum tempo. Os novos sistemas pensados para o IPv4 exigem grandes investimentos em infraestrutura. Por que não fazê-lo com o novo protocolo, pergunta Rosa Delgado.
Os países em vias de desenvolvimento podem ficar fora dessa mudança, como já ocorre com a conexão internet. Como não dispõem de capacidades técnicas, o fosso digital será ainda maior. “É preciso pensar no que se pode fazer para reduzir esse fosso.”
Características do IPv6
- Permite maior espaço de direcionamento, segurança, autoconfiguração e mobilidade.
- Infraestrutura de endereços de maneira mais eficaz e hierarquizada.
- Mobilidade
- Segurança Integrada
- Capacidade de ampliação
- Qualidade de serviço
- Velocidade
Na década de 70 os autores do protocolo versão IPv4 se basearam num sistema de 32 bits que podia gerar mais de 4,2 trilhões de endereços. Isso não cobre a atual demanda. No IPv6, os endereços passam de 32 para 128 bits. Especialistas prevêem que os endereços IPv4 ainda não registrados acabam até 2012. IPv4 e IPv6 são incompatíveis. As páginas web visíveis numa versão não aparecem na outra.
Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes
Socialismo Traído

Traição ao Socialismo foi causa de extinção da URSS.
A afirmação foi feita por dois militantes comunistas norte-americanos ao jornal Avante!, do Partido Comunista Português, em entrevista publicada sobre o exaustivo estudo que os dois fizeram em um livro dedicado às causas da derrota do socialismo e à desagregação da URSS.
Roger Keeran e Thomas Kenny são militantes comunistas norte-americanos. Roger é historiador com obra publicada e professor universitário. Thomas é economista. Amigos de longa data, lançaram-se juntos no estudo e aprofundamento das causas que levaram à derrota do socialismo e à desagregação da URSS, malogro que significou uma perda incalculável para os trabalhadores e povos oprimidos de todo o mundo. As reveladoras conclusões a que chegaram estão expostas no livro Socialismo Traído, recentemente publicado pelas Edições Avante! A íntegra da entrevista:
Avante - Desde quando e porquê se interessaram pela investigação das causas da derrota do socialismo e do colapso da União Soviética?
Thomas Kenny – Tanto eu como o Roger considerámos os acontecimentos entre 1989 e 1991, o colapso do socialismo europeu, como um desastre titânico. Após 1991 pensámos que a história do socialismo suscitaria o interesse de muitos investigadores e que haveria uma avalanche de publicações sobre o assunto. Mas enganámo-nos, não houve nada, apenas silêncio.
Apesar de este não ser o campo de trabalho de nenhum de nós, decidimos especializar-nos nesta área para fazer a investigação, lendo toda a literatura que encontrámos disponível. Trabalhámos durante quatro anos, entre 1991 e 2004, ano em que publicámos o livro nos Estados Unidos com as conclusões do estudo.
Mas o que nos levou realmente a tentar determinar as causas do colapso foi o fato de a teoria em que acreditamos não "autorizar" tal situação. O colapso do socialismo estava em contradição com tudo aquilo em que acreditávamos. Nunca pensámos que fosse possível destruir o socialismo, antes pelo contrário acreditávamos firmemente que o socialismo iria desenvolver-se e crescer continuamente.
P - O materialismo histórico estaria afinal errado?…
TK – Não. Estávamos certos de que, enquanto método, o materialismo histórico permanecia válido, mas interrogámo-nos por que é que nada se disse sobre isto? Precisámos de muitas leituras e mais de um ano e meio até começarmos a identificar algumas peças deste quebra-cabeças e nos darmos conta do peso da chamada "segunda economia" na União Soviética, fator que se revelou decisivo nas nossas conclusões.
RK – Nós acreditávamos que o socialismo do século 21 precisava saber o que é que tinha acontecido ao socialismo do século 20. Depois da Revolução de Outubro, o acontecimento mais importante do século 20 foi, talvez, a destruição da União Soviética e do socialismo na Europa.
P - Existe a idéia de que a perestróika constituiu uma resposta a uma crise econômica, social, política, cultural, ideológica, moral e partidária, consequência de graves deformações ao ideal socialista, de distorções, erros e atrasos acumulados ao longo de muitos anos. Afirma-se que o "modelo" soviético de socialismo havia esgotado as suas potencialidades de desenvolvimento, tornando-se necessário proceder a reformas radicais. Querem comentar?
RK – É natural que perante um passo atrás tão tremendo as pessoas tendam a reagir com exagero na avaliação das suas causas. Não havia crise nenhuma na União Soviética, havia problemas, mas não uma crise…
P - Mas para a maioria das pessoas é uma evidência de que só uma profunda crise poderia provocar tal catástrofe...
RK – Acho que podemos sintetizar o nosso ponto de vista do seguinte modo: não foi a doença que matou o socialismo mas sim a cura. Ao contrário do que muitos pensam, não havia sinais de uma crise: não havia desemprego, inflação, manifestações, etc.
Mas isto não significa que não houvesse problemas. É claro que os havia, principalmente no plano econômico, muito deles agravados no período de Bréjnev, cuja liderança se caracterizou por uma passividade e falta de vontade para enfrentar os problemas. Neste sentido podemos dizer que houve uma espécie de "estagnação", apesar de não gostarmos desta palavra, já que significa ausência de crescimento, o que não corresponde à verdade.
P - Os problemas econômicos agravaram-se a partir de que altura?
TK – A taxa de crescimento da economia começou a abrandar a partir da época de Khruchov, passando de 10 a 15 por cento ao ano para cinco, quatro e três por cento. Houve uma clara desaceleração, mas continuou a observar-se um crescimento respeitável segundo os padrões capitalistas, o que permitiu elevar continuamente o nível de vida na União Soviética. Em 1985 o nível de vida tinha atingido o seu ponto máximo.
No plano das nacionalidades, não se observavam conflitos ou contradições nacionais relevantes entre os povos da União Soviética. Havia problemas, dificuldades, mas não uma crise.
No plano internacional, a URSS estava sob pressão do imperialismo norte-americano. A administração Reagan aumentou a pressão militar, econômica e diplomática. Também identificámos problemas no interior do partido que exigiam reformas. Mas a questão principal era outra.
Só com Gorbatchov a direita triunfou.
P - Se, como afirmam, o socialismo não estava em crise, qual a origem das reformas destruidoras realizadas no final dos anos 80 na URSS?
TK - Ao longo da história da União Soviética digladiaram-se sempre duas tendências na política soviética: uma ala de direita, que defendia a incorporação de formas e idéias capitalistas, e uma ala de esquerda que apostava na luta de classes, num partido comunista forte e na defesa intransigente das posições da classe operária.
De resto, encontramos estas duas correntes mesmo antes da revolução de Outubro. Os mencheviques, por um lado, e os bolcheviques por outro. Mais tarde esta luta é polarizada por Bukhárin e Stálin, Khruchov e Mólotov, Bréjnev e Andrópov, Gorbatchov e Ligatchov. Toda a história da URSS pode ser vista à luz da luta entre estas duas correntes. No entanto, só com Gorbatchov a ala direita obteve um triunfo completo.
RK – Bréjnev, com a sua política de estabilidade de quadros e o seu receio de fazer ondas, deixou uma direção extremamente envelhecida e permitiu que se agravassem vários problemas na economia e na sociedade.
A carência de alguns produtos, sobretudo os de alta qualidade, o desenvolvimento da "segunda economia", a corrupção de dirigentes do partido, tudo isto desagradava às pessoas. Quando Gorbatchov prometeu resolver estes problemas, quase toda a gente concordou. Parecia que finalmente tinha aparecido alguém com vontade de mudar as coisas para melhor.
P - Todavia, alguns apontam como causas do colapso a degeneração do partido comunista, o fato de o trabalho coletivo ter sido substituído a dada altura por um pequeno círculo de dirigentes e mesmo por um só dirigente individualmente; a democracia partidária ter sido estrangulada por um sistema burocrático centralizado; a indesejável fusão e confusão entre as estruturas do partido e do Estado; o afastamento do partido das massas; o fracasso da democracia socialista que era apresentada como um tipo superior de democracia. De acordo com esta tese, o povo soviético foi despojado do poder político e isso foi fatal para o socialismo. Concordam?
TK - A visão de que a União Soviética sofria de um déficit democrático e de um excesso de centralização está muito espalhada entre socialistas reformistas, sociais-democratas, historiadores burgueses e mesmo entre alguns comunistas, mas, na nossa opinião, é uma visão errada e exagerada dos problemas da democracia soviética.
Apesar de alguns problemas, a democracia soviética tinha uma grande vitalidade. Cerca de 35 milhões de trabalhadores participavam diretamente no trabalho dos sovietes, que eram instituições de poder que tomavam decisões efectivas, 163 milhões de trabalhadores estavam sindicalizados, o partido tinha 18 milhões de militantes, a democracia tinha outras instituições como as seções de cartas do leitor em todos os jornais, as organizações de mulheres e de jovens.
É verdade que todas estas instituições tinham insuficiências, poderiam funcionar melhor e de forma mais efetiva, mas não é verdade que fossem instituições de fachada.
As pessoas que atacaram o nosso livro acreditam, na sua maioria, que a falta de democracia e o excesso de centralização foram as causas do colapso soviético. Curiosamente, este sempre foi o principal argumento da burguesia para difamar o regime soviético muito antes da chegada de Gorbatchov. Na nossa opinião é incorreto acusar a democracia soviética de ter levado ao colapso.
RK – Muitas dessas críticas radicam na concepção burguesa de democracia. Na verdade a União Soviética sempre foi acusada de não ter uma democracia burguesa, de não ter partidos concorrentes. Todavia, as formas de democracia socialista, sem serem perfeitas, eram sob muitos aspectos muito mais ricas do que a democracia burguesa.
Penso que o recente conflito na Geórgia nos fornece um exemplo a este respeito. Na antiga União Soviética, a Ossétia do Sul era um território autónomo onde as minorias étnicas tinham as suas escolas, língua, cultura.
Após a desagregação da URSS, a "democracia" georgiana aboliu o estatuto de autonomia dos ossetas, o que agravou as tensões e desembocou numa guerra na região.
TK – Houve razões históricas que determinaram que na URSS apenas houvesse um partido. Logo a seguir à revolução os restantes partidos combateram o poder soviético, os socialistas revolucionários abandonaram o governo e tudo isso levou a que apenas ficassem os bolcheviques.
A maioria dos países socialistas europeus tinha vários partidos, embora o papel dirigente do partido da classe operária fosse salvaguardado. A existência de um só partido acentuou a idéia de fusão entre o partido e o Estado, mas não vemos que isso possa ter constituído uma causa do colapso.
P - Mas as insuficiências da democracia soviética não terão impedido o povo de defender as conquistas revolucionárias, a URSS e o socialismo?
TK – Esse é o principal argumento dos que afirmam que havia um déficit democrático. Porque é que o povo não defendeu o socialismo? Perguntam dando como resposta a falta de democracia e o excesso de centralização.
Em primeiro lugar, não é verdade que não tenha havido
resistência. Houve, basta lembrar que, no referendo de 1991, a maioria esmagadora dos soviéticos (75 por cento) votou a favor da manutenção da URSS.
Por outro lado, para percebermos porque é que essa resistência não foi suficientemente forte para derrotar a contra-revolução, temos de ter em conta o seguinte: Gorbatchov e Iákovlev, ao mesmo tempo que prometiam o aperfeiçoamento do socialismo, com mais liberdade e democracia, destruíram num curto espaço de tempo as instituições por meio das quais a base do partido e o povo podiam expressar a sua vontade.
A organização do partido foi desmantelada, os jornais e todos os meios de informação foram entregues a anticomunistas. De repente desapareceram os mecanismos e formas habituais de expressão democrática popular.
P - Regressando à economia, ficou-nos da perestróika a idéia de que o excesso de centralização, de planificação e de burocracia foram os causadores dos atrasos no desenvolvimento econômico. Alguns acrescentam que houve uma estatização exagerada da economia, que as diferentes formas de propriedade deveriam ter sido mantidas e que o papel do mercado foi claramente subestimado durante o processo de construção do socialismo. Qual é o vosso ponto de vista?
RK – Penso que temos de começar por fazer a seguinte observação que ninguém contesta: a propriedade social dos meios de produção na União Soviética permitiu os mais rápidos ritmos de crescimento industrial jamais registrados em qualquer época da história. Isso ocorreu nos anos 30, mas também a seguir à guerra até meados dos anos 50. Em quatro ou cinco anos, a União Soviética conseguiu recuperar da devastação provocada pela Segunda Guerra Mundial, que deixou em ruínas um terço das cidades e um terço das indústrias.
Por tudo isto, nunca pensámos que a propriedade estatal, a centralização e a planificação pudessem ter causado o colapso. Mas havia algumas questões que precisavam de ser explicadas.
P - Porque é que o crescimento começou a declinar nos anos 60 e 70. A economia continuava a crescer, mas qual era a razão da desaceleração? Os críticos da planificação centralizada viram aqui a demonstração das suas teses…
Talvez as enormes proporções atingidas pela economia colocassem verdadeiros problemas e dificultassem essa planificação?
RK – Sim, é certo que a expansão da economia tornou a planificação numa tarefa mais complexa. Todavia, a conclusão a que chegámos aponta em sentido contrário, ou seja, foi a erosão da planificação e o florescimento da "segunda economia" que colocaram entraves ao crescimento econômico na URSS.
Não foi portanto a subestimação do papel do mercado, mas antes as medidas tomadas para o seu alargamento que desviaram recursos da economia socialista.
TK - Todas as sociedades socialistas têm mercados. A própria União Soviética sempre teve um mercado para o consumo privado. No entanto, as reformas econômicas de Khruchov não só descentralizaram a planificação como introduziram alguns mecanismos de mercado na economia e formas de concorrência entre as empresas.
As reformas de Kossiguin [primeiro-ministro da URSS entre 1964 e 1980] traduziram-se em cada vez maiores concessões ao modo de pensar capitalista.
Dos cinco institutos mais importantes e influentes de economia política soviéticos, três estavam nas mãos de economistas pró-capitalistas do tipo de Aganbeguian, por exemplo.
Os principais setores da inteliguentsia, incluindo os economistas, exerciam importantes pressões sobre o governo. Este foi um processo que se desenvolveu ao longo de 20 anos, não aconteceu tudo de uma vez.
P - Para alguns a perestróika tinha boas intenções mas falhou. No vosso livro, afirmam que esta foi a grande oportunidade para as forças anti-socialistas avançarem. Qual foi a responsabilidade e que intenções reais teve Gorbatchov em todo este processo?
TK – Apesar das suas posições oportunistas, não pensamos que Gorbatchov tenha agido conscientemente logo de início para trair o socialismo e restaurar o capitalismo.
Ao contrário de Andrópov, que era profundo e um marxista-leninista genuíno, Gorbatchov era um brilhante ator, mas uma pessoa superficial, sem grande preparação teórica.
Quando se deslocou politicamente para a direita sob a influência de Iákovlev*, descobriu que o imperialismo o aprovava, que os elementos corrompidos do partido concordavam com ele, especialmente aqueles ligados à segunda economia que defendiam o setor privado, e aos poucos foi acelerando as reformas neste sentido.
A dado momento Gorbatchov tomou a decisão consciente de que não era mais um comunista, mas um social-democrata, não acreditava mais na planificação, na propriedade social dos meios de produção, no papel da classe operária, na democracia socialista, queria que a União Soviética se transformasse numa Suécia ou algo parecido.
O oportunismo, o abandono da luta foi um processo gradual que se tornou evidente em 1986. Alguns dirigentes do partido ofereceram determinada resistência, como foi o caso de Ligatchov**, mas mesmo este tinha fraquezas, embora fosse de longe melhor homem do que Gorbatchov. Ligachov foi apanhado de surpresa.
Ele próprio afirmou que havia duas formas de corrupção, uma que há muito todos sabiam que existia, e à qual queriam pôr fim quando assumiram o poder em 1985; e uma outra que surgiu no espaço de um ano e meio como uma forte vaga de pressão, vinda da "segunda economia" e das organizações mafiosas florescentes.
P - Como puderam esses setores emergir com tal força na sociedade socialista?
TK – A "segunda economia" alcançou uma expressão importante em dois períodos da história da URSS: o primeiro foi durante a Nova Política Econômica (NEP) dos anos 20 que permitiu o desenvolvimento do capitalismo, sob controlo estatal dentro de determinados limites.
Esta foi uma opção consciente do Estado socialista tomada provisoriamente para fazer face à situação de emergência causada pela guerra civil. Em 1928-29 a NEP foi superada de forma decidida.
No entanto, dirigentes do partido como Bukhárin defenderam a manutenção da NEP apresentando-a como a via mais adequada para alcançar o socialismo. Esta corrente foi derrotada pela maioria do partido liderada por Stálin, que justamente lembrou que a NEP fora definida por Lênin como um recuo necessário, porém temporário. E apostaram na planificação centralizada e na propriedade social dos meios de produção.
Mas este período dos anos 20 ficou marcado não só pelo florescimento do capitalismo e dos setores marginais e criminosos, mas também pelo alastramento de uma ideologia de direita, anti-socialista. Ou seja, podemos ver claramente uma correspondência entre a base material e a ideologia.
O segundo período foi mais prolongado e gradual. Teve início em meados dos anos 50, após a morte de Stálin. Khruchov foi a primeira peça deste quebra-cabeças. Em muitos aspectos, não todos, teve desvios de direita e quando estes foram demasiados houve uma correção. Veio Bréjnev, mas este detestava mudanças, queria estabilidade, e apesar das disputas entre as alas esquerda e direita os problemas continuaram a acumular-se.
‘O socialismo é uma construção consciente’.
P - Foi então o acumular de problemas na época de Bréjnev que condicionou as reformas dos anos 80?
TK – Nos anos 80, os problemas eram evidentes para todos, mas a questão-chave que se colocava era qual das duas tendências tradicionais no partido os iria resolver: a tendência de direita ou a tendência de esquerda?…
Infelizmente já conhecemos a resposta…
RK – Mas Bréjnev não teve apenas aspectos negativos. No plano internacional obteve a paridade militar com os Estados Unidos e ajudou os movimentos revolucionários em várias regiões do mundo.
Este esforço no plano militar e no plano da solidariedade internacionalista exigiu importantes recursos que não puderam ser utilizados para suprir necessidades domésticas.
Talvez também por esta razão que, durante este período, se tenha fechado os olhos ao setor privado ilegal que se desenvolvia nas bordas da economia socialista. Esta espécie de "pacto" com a "segunda economia" permitiu o surgimento de uma camada que ficou conhecida como "os milionários de Bréjnev", que eram pessoas que fizeram fortunas através de redes de corrupção toleradas pelo poder.
TK – Bem, trata-se de um setor ilegal, por isso não há números oficiais, o que torna o seu estudo difícil…
RK – Mas é verdade que se trata de um fenômeno ignorado e não reconhecido pela literatura marxista. A "segunda economia" foi sempre vista como um resquício do capitalismo que desapareceria à medida do avanço do socialismo.
Contudo, há alguns estudos que nos mostram que o seu peso estava longe de ser negligenciável. Por exemplo, é interessante comparar o período de Bréjnev com os primeiros meses da direção de Andrópov em termos de processos criminais instruídos por atividades econômicas ilícitas.
Verificamos que nos anos de Bréjnev não houve praticamente condenações pela prática deste tipo de crime, mesmo quando os casos chegaram a ser julgados em tribunal. Com Andrópov esta situação alterou-se radicalmente. Muitas pessoas foram condenadas nesse período.
P - No vosso livro, não dedicam muito espaço à análise do chamado "relatório secreto" apresentado ao 20.º congresso do PCUS por Khruchov sobre o "culto à personalidade", mas referem a necessidade de reavaliar o período comumente designado por "stalinismo", notando que enquanto tal não for feito, os comunistas continuarão prisioneiros do passado. Querem explicar?
RK – Quando começámos a escrever o livro essa questão colocou-se e tivemos de tomar uma decisão. Decidimos que não iríamos entrar no tema quente de Stálin. Há muitos preconceitos enraizados e, sobretudo, há muitas coisas que não conhecemos suficientemente para podermos desmontar idéias feitas e diariamente repetidas sobre Stálin.
A única coisa que fizemos, ou pelo menos tentámos, foi abrir a porta a este assunto. Nós não temos todas as respostas sobre Stálin e a sua época, e seria um erro pensar que temos. Há muitos aspectos históricos e políticos que precisamos de absorver e compreender.
P - Contudo, praticamente todas as conquistas do socialismo que enumeram na introdução do livro foram alcançadas em particular durante os anos 30, sob a direção de Stálin…
TK – É um fato, mas tivemos de fazer uma opção entre tratar toda a questão ou apenas o que consideramos ser a questão-chave. Por acaso, a maioria dos ataques ao nosso livro por parte de marxistas ou pseudo-marxistas, sociais-democratas ou comunistas revisionistas centraram-se precisamente na questão de Stálin.
Não contestaram nada do que dissemos sobre Gorbatchov nem sobre a "segunda economia", apenas nos censuraram por sermos demasiado brandos com Stálin e por não termos reconhecido que Stálin era um monstro, um louco, um carniceiro. Esta questão no Partido Comunista dos Estados Unidos é particularmente sensível.
P - Mas se a tese do vosso livro está correta, então as políticas de Stálin terão sido as mais corretas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias.
RK – O ódio a Stálin é tão cego e intenso que alguns críticos do nosso livro dizem que estamos errados e insistem que Stálin foi a causa do colapso da URSS.
P - Vem a propósito uma reflexão vossa sobre a importância do fator subjetivo no socialismo. Segundo afirmam, o papel dos dirigentes é mais decisivo no socialismo do que no capitalismo. Porquê?
TK – O capitalismo cresce enquanto que o socialismo é construído. No livro utilizamos uma metáfora em que comparamos o capitalismo a uma jangada a descer um rio. As possibilidades de dirigir a jangada são reduzidas, ela é arrastada pela força da corrente e apenas se podem fazer algumas pequenas correções na trajetória.
Nesta metáfora, o socialismo é um avião, o qual apesar de ser um meio de transporte incomparavelmente superior exige ser pilotado por uma equipa bem preparada científica e tecnologicamente, capaz de compreender e aplicar conscientemente as leis da ciência.
Ou seja, apesar de o avião ser um sistema superior é vulnerável num sentido em que a jangada não o é. Isto não significa obviamente que devamos abandonar o avião e voltar à jangada, assim como não podemos voltar ao tempo das cavernas, apesar de as nossas casas poderem ruir.
*Alekssandr Iákovlev — responsável a partir de 1985 pelo departamento de propaganda do PCUS, torna-se membro do CC do PCUS em 1986, responsável pelas questões da ideologia, informação e cultura.
Sobe ao politburo em junho de 1986 e é sob proposta sua que são nomeados os diretores dos principais jornais e revistas do país que passam a defender abertamente posições antisocialistas (os jornais Moskovskie Novosti, Sovietskskaia Kultura, Izvestia; as revistas Ogoniok, Znamia, Novi Mir, entre outros). Faz publicar uma série de romances de escritores dissidentes e anti-soviéticos, bem como cerca de 30 filmes antes proibidos. Em agosto de 1991 anuncia a decisão de abandonar o PCUS.
** Iegor Ligatchov – membro do politburo entre 1985 e 1991, foi um dos impulsionadores da campanha anti-álcool (1985-87) e, mais tarde, assumiu-se como um opositor às reformas de Gorbatchov.
Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes
A afirmação foi feita por dois militantes comunistas norte-americanos ao jornal Avante!, do Partido Comunista Português, em entrevista publicada sobre o exaustivo estudo que os dois fizeram em um livro dedicado às causas da derrota do socialismo e à desagregação da URSS.
Roger Keeran e Thomas Kenny são militantes comunistas norte-americanos. Roger é historiador com obra publicada e professor universitário. Thomas é economista. Amigos de longa data, lançaram-se juntos no estudo e aprofundamento das causas que levaram à derrota do socialismo e à desagregação da URSS, malogro que significou uma perda incalculável para os trabalhadores e povos oprimidos de todo o mundo. As reveladoras conclusões a que chegaram estão expostas no livro Socialismo Traído, recentemente publicado pelas Edições Avante! A íntegra da entrevista:
Avante - Desde quando e porquê se interessaram pela investigação das causas da derrota do socialismo e do colapso da União Soviética?
Thomas Kenny – Tanto eu como o Roger considerámos os acontecimentos entre 1989 e 1991, o colapso do socialismo europeu, como um desastre titânico. Após 1991 pensámos que a história do socialismo suscitaria o interesse de muitos investigadores e que haveria uma avalanche de publicações sobre o assunto. Mas enganámo-nos, não houve nada, apenas silêncio.
Apesar de este não ser o campo de trabalho de nenhum de nós, decidimos especializar-nos nesta área para fazer a investigação, lendo toda a literatura que encontrámos disponível. Trabalhámos durante quatro anos, entre 1991 e 2004, ano em que publicámos o livro nos Estados Unidos com as conclusões do estudo.
Mas o que nos levou realmente a tentar determinar as causas do colapso foi o fato de a teoria em que acreditamos não "autorizar" tal situação. O colapso do socialismo estava em contradição com tudo aquilo em que acreditávamos. Nunca pensámos que fosse possível destruir o socialismo, antes pelo contrário acreditávamos firmemente que o socialismo iria desenvolver-se e crescer continuamente.
P - O materialismo histórico estaria afinal errado?…
TK – Não. Estávamos certos de que, enquanto método, o materialismo histórico permanecia válido, mas interrogámo-nos por que é que nada se disse sobre isto? Precisámos de muitas leituras e mais de um ano e meio até começarmos a identificar algumas peças deste quebra-cabeças e nos darmos conta do peso da chamada "segunda economia" na União Soviética, fator que se revelou decisivo nas nossas conclusões.
RK – Nós acreditávamos que o socialismo do século 21 precisava saber o que é que tinha acontecido ao socialismo do século 20. Depois da Revolução de Outubro, o acontecimento mais importante do século 20 foi, talvez, a destruição da União Soviética e do socialismo na Europa.
P - Existe a idéia de que a perestróika constituiu uma resposta a uma crise econômica, social, política, cultural, ideológica, moral e partidária, consequência de graves deformações ao ideal socialista, de distorções, erros e atrasos acumulados ao longo de muitos anos. Afirma-se que o "modelo" soviético de socialismo havia esgotado as suas potencialidades de desenvolvimento, tornando-se necessário proceder a reformas radicais. Querem comentar?
RK – É natural que perante um passo atrás tão tremendo as pessoas tendam a reagir com exagero na avaliação das suas causas. Não havia crise nenhuma na União Soviética, havia problemas, mas não uma crise…
P - Mas para a maioria das pessoas é uma evidência de que só uma profunda crise poderia provocar tal catástrofe...
RK – Acho que podemos sintetizar o nosso ponto de vista do seguinte modo: não foi a doença que matou o socialismo mas sim a cura. Ao contrário do que muitos pensam, não havia sinais de uma crise: não havia desemprego, inflação, manifestações, etc.
Mas isto não significa que não houvesse problemas. É claro que os havia, principalmente no plano econômico, muito deles agravados no período de Bréjnev, cuja liderança se caracterizou por uma passividade e falta de vontade para enfrentar os problemas. Neste sentido podemos dizer que houve uma espécie de "estagnação", apesar de não gostarmos desta palavra, já que significa ausência de crescimento, o que não corresponde à verdade.
P - Os problemas econômicos agravaram-se a partir de que altura?
TK – A taxa de crescimento da economia começou a abrandar a partir da época de Khruchov, passando de 10 a 15 por cento ao ano para cinco, quatro e três por cento. Houve uma clara desaceleração, mas continuou a observar-se um crescimento respeitável segundo os padrões capitalistas, o que permitiu elevar continuamente o nível de vida na União Soviética. Em 1985 o nível de vida tinha atingido o seu ponto máximo.
No plano das nacionalidades, não se observavam conflitos ou contradições nacionais relevantes entre os povos da União Soviética. Havia problemas, dificuldades, mas não uma crise.
No plano internacional, a URSS estava sob pressão do imperialismo norte-americano. A administração Reagan aumentou a pressão militar, econômica e diplomática. Também identificámos problemas no interior do partido que exigiam reformas. Mas a questão principal era outra.
Só com Gorbatchov a direita triunfou.
P - Se, como afirmam, o socialismo não estava em crise, qual a origem das reformas destruidoras realizadas no final dos anos 80 na URSS?
TK - Ao longo da história da União Soviética digladiaram-se sempre duas tendências na política soviética: uma ala de direita, que defendia a incorporação de formas e idéias capitalistas, e uma ala de esquerda que apostava na luta de classes, num partido comunista forte e na defesa intransigente das posições da classe operária.
De resto, encontramos estas duas correntes mesmo antes da revolução de Outubro. Os mencheviques, por um lado, e os bolcheviques por outro. Mais tarde esta luta é polarizada por Bukhárin e Stálin, Khruchov e Mólotov, Bréjnev e Andrópov, Gorbatchov e Ligatchov. Toda a história da URSS pode ser vista à luz da luta entre estas duas correntes. No entanto, só com Gorbatchov a ala direita obteve um triunfo completo.
RK – Bréjnev, com a sua política de estabilidade de quadros e o seu receio de fazer ondas, deixou uma direção extremamente envelhecida e permitiu que se agravassem vários problemas na economia e na sociedade.
A carência de alguns produtos, sobretudo os de alta qualidade, o desenvolvimento da "segunda economia", a corrupção de dirigentes do partido, tudo isto desagradava às pessoas. Quando Gorbatchov prometeu resolver estes problemas, quase toda a gente concordou. Parecia que finalmente tinha aparecido alguém com vontade de mudar as coisas para melhor.
P - Todavia, alguns apontam como causas do colapso a degeneração do partido comunista, o fato de o trabalho coletivo ter sido substituído a dada altura por um pequeno círculo de dirigentes e mesmo por um só dirigente individualmente; a democracia partidária ter sido estrangulada por um sistema burocrático centralizado; a indesejável fusão e confusão entre as estruturas do partido e do Estado; o afastamento do partido das massas; o fracasso da democracia socialista que era apresentada como um tipo superior de democracia. De acordo com esta tese, o povo soviético foi despojado do poder político e isso foi fatal para o socialismo. Concordam?
TK - A visão de que a União Soviética sofria de um déficit democrático e de um excesso de centralização está muito espalhada entre socialistas reformistas, sociais-democratas, historiadores burgueses e mesmo entre alguns comunistas, mas, na nossa opinião, é uma visão errada e exagerada dos problemas da democracia soviética.
Apesar de alguns problemas, a democracia soviética tinha uma grande vitalidade. Cerca de 35 milhões de trabalhadores participavam diretamente no trabalho dos sovietes, que eram instituições de poder que tomavam decisões efectivas, 163 milhões de trabalhadores estavam sindicalizados, o partido tinha 18 milhões de militantes, a democracia tinha outras instituições como as seções de cartas do leitor em todos os jornais, as organizações de mulheres e de jovens.
É verdade que todas estas instituições tinham insuficiências, poderiam funcionar melhor e de forma mais efetiva, mas não é verdade que fossem instituições de fachada.
As pessoas que atacaram o nosso livro acreditam, na sua maioria, que a falta de democracia e o excesso de centralização foram as causas do colapso soviético. Curiosamente, este sempre foi o principal argumento da burguesia para difamar o regime soviético muito antes da chegada de Gorbatchov. Na nossa opinião é incorreto acusar a democracia soviética de ter levado ao colapso.
RK – Muitas dessas críticas radicam na concepção burguesa de democracia. Na verdade a União Soviética sempre foi acusada de não ter uma democracia burguesa, de não ter partidos concorrentes. Todavia, as formas de democracia socialista, sem serem perfeitas, eram sob muitos aspectos muito mais ricas do que a democracia burguesa.
Penso que o recente conflito na Geórgia nos fornece um exemplo a este respeito. Na antiga União Soviética, a Ossétia do Sul era um território autónomo onde as minorias étnicas tinham as suas escolas, língua, cultura.
Após a desagregação da URSS, a "democracia" georgiana aboliu o estatuto de autonomia dos ossetas, o que agravou as tensões e desembocou numa guerra na região.
TK – Houve razões históricas que determinaram que na URSS apenas houvesse um partido. Logo a seguir à revolução os restantes partidos combateram o poder soviético, os socialistas revolucionários abandonaram o governo e tudo isso levou a que apenas ficassem os bolcheviques.
A maioria dos países socialistas europeus tinha vários partidos, embora o papel dirigente do partido da classe operária fosse salvaguardado. A existência de um só partido acentuou a idéia de fusão entre o partido e o Estado, mas não vemos que isso possa ter constituído uma causa do colapso.
P - Mas as insuficiências da democracia soviética não terão impedido o povo de defender as conquistas revolucionárias, a URSS e o socialismo?
TK – Esse é o principal argumento dos que afirmam que havia um déficit democrático. Porque é que o povo não defendeu o socialismo? Perguntam dando como resposta a falta de democracia e o excesso de centralização.
Em primeiro lugar, não é verdade que não tenha havido
resistência. Houve, basta lembrar que, no referendo de 1991, a maioria esmagadora dos soviéticos (75 por cento) votou a favor da manutenção da URSS.
Por outro lado, para percebermos porque é que essa resistência não foi suficientemente forte para derrotar a contra-revolução, temos de ter em conta o seguinte: Gorbatchov e Iákovlev, ao mesmo tempo que prometiam o aperfeiçoamento do socialismo, com mais liberdade e democracia, destruíram num curto espaço de tempo as instituições por meio das quais a base do partido e o povo podiam expressar a sua vontade.
A organização do partido foi desmantelada, os jornais e todos os meios de informação foram entregues a anticomunistas. De repente desapareceram os mecanismos e formas habituais de expressão democrática popular.
P - Regressando à economia, ficou-nos da perestróika a idéia de que o excesso de centralização, de planificação e de burocracia foram os causadores dos atrasos no desenvolvimento econômico. Alguns acrescentam que houve uma estatização exagerada da economia, que as diferentes formas de propriedade deveriam ter sido mantidas e que o papel do mercado foi claramente subestimado durante o processo de construção do socialismo. Qual é o vosso ponto de vista?
RK – Penso que temos de começar por fazer a seguinte observação que ninguém contesta: a propriedade social dos meios de produção na União Soviética permitiu os mais rápidos ritmos de crescimento industrial jamais registrados em qualquer época da história. Isso ocorreu nos anos 30, mas também a seguir à guerra até meados dos anos 50. Em quatro ou cinco anos, a União Soviética conseguiu recuperar da devastação provocada pela Segunda Guerra Mundial, que deixou em ruínas um terço das cidades e um terço das indústrias.
Por tudo isto, nunca pensámos que a propriedade estatal, a centralização e a planificação pudessem ter causado o colapso. Mas havia algumas questões que precisavam de ser explicadas.
P - Porque é que o crescimento começou a declinar nos anos 60 e 70. A economia continuava a crescer, mas qual era a razão da desaceleração? Os críticos da planificação centralizada viram aqui a demonstração das suas teses…
Talvez as enormes proporções atingidas pela economia colocassem verdadeiros problemas e dificultassem essa planificação?
RK – Sim, é certo que a expansão da economia tornou a planificação numa tarefa mais complexa. Todavia, a conclusão a que chegámos aponta em sentido contrário, ou seja, foi a erosão da planificação e o florescimento da "segunda economia" que colocaram entraves ao crescimento econômico na URSS.
Não foi portanto a subestimação do papel do mercado, mas antes as medidas tomadas para o seu alargamento que desviaram recursos da economia socialista.
TK - Todas as sociedades socialistas têm mercados. A própria União Soviética sempre teve um mercado para o consumo privado. No entanto, as reformas econômicas de Khruchov não só descentralizaram a planificação como introduziram alguns mecanismos de mercado na economia e formas de concorrência entre as empresas.
As reformas de Kossiguin [primeiro-ministro da URSS entre 1964 e 1980] traduziram-se em cada vez maiores concessões ao modo de pensar capitalista.
Dos cinco institutos mais importantes e influentes de economia política soviéticos, três estavam nas mãos de economistas pró-capitalistas do tipo de Aganbeguian, por exemplo.
Os principais setores da inteliguentsia, incluindo os economistas, exerciam importantes pressões sobre o governo. Este foi um processo que se desenvolveu ao longo de 20 anos, não aconteceu tudo de uma vez.
P - Para alguns a perestróika tinha boas intenções mas falhou. No vosso livro, afirmam que esta foi a grande oportunidade para as forças anti-socialistas avançarem. Qual foi a responsabilidade e que intenções reais teve Gorbatchov em todo este processo?
TK – Apesar das suas posições oportunistas, não pensamos que Gorbatchov tenha agido conscientemente logo de início para trair o socialismo e restaurar o capitalismo.
Ao contrário de Andrópov, que era profundo e um marxista-leninista genuíno, Gorbatchov era um brilhante ator, mas uma pessoa superficial, sem grande preparação teórica.
Quando se deslocou politicamente para a direita sob a influência de Iákovlev*, descobriu que o imperialismo o aprovava, que os elementos corrompidos do partido concordavam com ele, especialmente aqueles ligados à segunda economia que defendiam o setor privado, e aos poucos foi acelerando as reformas neste sentido.
A dado momento Gorbatchov tomou a decisão consciente de que não era mais um comunista, mas um social-democrata, não acreditava mais na planificação, na propriedade social dos meios de produção, no papel da classe operária, na democracia socialista, queria que a União Soviética se transformasse numa Suécia ou algo parecido.
O oportunismo, o abandono da luta foi um processo gradual que se tornou evidente em 1986. Alguns dirigentes do partido ofereceram determinada resistência, como foi o caso de Ligatchov**, mas mesmo este tinha fraquezas, embora fosse de longe melhor homem do que Gorbatchov. Ligachov foi apanhado de surpresa.
Ele próprio afirmou que havia duas formas de corrupção, uma que há muito todos sabiam que existia, e à qual queriam pôr fim quando assumiram o poder em 1985; e uma outra que surgiu no espaço de um ano e meio como uma forte vaga de pressão, vinda da "segunda economia" e das organizações mafiosas florescentes.
P - Como puderam esses setores emergir com tal força na sociedade socialista?
TK – A "segunda economia" alcançou uma expressão importante em dois períodos da história da URSS: o primeiro foi durante a Nova Política Econômica (NEP) dos anos 20 que permitiu o desenvolvimento do capitalismo, sob controlo estatal dentro de determinados limites.
Esta foi uma opção consciente do Estado socialista tomada provisoriamente para fazer face à situação de emergência causada pela guerra civil. Em 1928-29 a NEP foi superada de forma decidida.
No entanto, dirigentes do partido como Bukhárin defenderam a manutenção da NEP apresentando-a como a via mais adequada para alcançar o socialismo. Esta corrente foi derrotada pela maioria do partido liderada por Stálin, que justamente lembrou que a NEP fora definida por Lênin como um recuo necessário, porém temporário. E apostaram na planificação centralizada e na propriedade social dos meios de produção.
Mas este período dos anos 20 ficou marcado não só pelo florescimento do capitalismo e dos setores marginais e criminosos, mas também pelo alastramento de uma ideologia de direita, anti-socialista. Ou seja, podemos ver claramente uma correspondência entre a base material e a ideologia.
O segundo período foi mais prolongado e gradual. Teve início em meados dos anos 50, após a morte de Stálin. Khruchov foi a primeira peça deste quebra-cabeças. Em muitos aspectos, não todos, teve desvios de direita e quando estes foram demasiados houve uma correção. Veio Bréjnev, mas este detestava mudanças, queria estabilidade, e apesar das disputas entre as alas esquerda e direita os problemas continuaram a acumular-se.
‘O socialismo é uma construção consciente’.
P - Foi então o acumular de problemas na época de Bréjnev que condicionou as reformas dos anos 80?
TK – Nos anos 80, os problemas eram evidentes para todos, mas a questão-chave que se colocava era qual das duas tendências tradicionais no partido os iria resolver: a tendência de direita ou a tendência de esquerda?…
Infelizmente já conhecemos a resposta…
RK – Mas Bréjnev não teve apenas aspectos negativos. No plano internacional obteve a paridade militar com os Estados Unidos e ajudou os movimentos revolucionários em várias regiões do mundo.
Este esforço no plano militar e no plano da solidariedade internacionalista exigiu importantes recursos que não puderam ser utilizados para suprir necessidades domésticas.
Talvez também por esta razão que, durante este período, se tenha fechado os olhos ao setor privado ilegal que se desenvolvia nas bordas da economia socialista. Esta espécie de "pacto" com a "segunda economia" permitiu o surgimento de uma camada que ficou conhecida como "os milionários de Bréjnev", que eram pessoas que fizeram fortunas através de redes de corrupção toleradas pelo poder.
TK – Bem, trata-se de um setor ilegal, por isso não há números oficiais, o que torna o seu estudo difícil…
RK – Mas é verdade que se trata de um fenômeno ignorado e não reconhecido pela literatura marxista. A "segunda economia" foi sempre vista como um resquício do capitalismo que desapareceria à medida do avanço do socialismo.
Contudo, há alguns estudos que nos mostram que o seu peso estava longe de ser negligenciável. Por exemplo, é interessante comparar o período de Bréjnev com os primeiros meses da direção de Andrópov em termos de processos criminais instruídos por atividades econômicas ilícitas.
Verificamos que nos anos de Bréjnev não houve praticamente condenações pela prática deste tipo de crime, mesmo quando os casos chegaram a ser julgados em tribunal. Com Andrópov esta situação alterou-se radicalmente. Muitas pessoas foram condenadas nesse período.
P - No vosso livro, não dedicam muito espaço à análise do chamado "relatório secreto" apresentado ao 20.º congresso do PCUS por Khruchov sobre o "culto à personalidade", mas referem a necessidade de reavaliar o período comumente designado por "stalinismo", notando que enquanto tal não for feito, os comunistas continuarão prisioneiros do passado. Querem explicar?
RK – Quando começámos a escrever o livro essa questão colocou-se e tivemos de tomar uma decisão. Decidimos que não iríamos entrar no tema quente de Stálin. Há muitos preconceitos enraizados e, sobretudo, há muitas coisas que não conhecemos suficientemente para podermos desmontar idéias feitas e diariamente repetidas sobre Stálin.
A única coisa que fizemos, ou pelo menos tentámos, foi abrir a porta a este assunto. Nós não temos todas as respostas sobre Stálin e a sua época, e seria um erro pensar que temos. Há muitos aspectos históricos e políticos que precisamos de absorver e compreender.
P - Contudo, praticamente todas as conquistas do socialismo que enumeram na introdução do livro foram alcançadas em particular durante os anos 30, sob a direção de Stálin…
TK – É um fato, mas tivemos de fazer uma opção entre tratar toda a questão ou apenas o que consideramos ser a questão-chave. Por acaso, a maioria dos ataques ao nosso livro por parte de marxistas ou pseudo-marxistas, sociais-democratas ou comunistas revisionistas centraram-se precisamente na questão de Stálin.
Não contestaram nada do que dissemos sobre Gorbatchov nem sobre a "segunda economia", apenas nos censuraram por sermos demasiado brandos com Stálin e por não termos reconhecido que Stálin era um monstro, um louco, um carniceiro. Esta questão no Partido Comunista dos Estados Unidos é particularmente sensível.
P - Mas se a tese do vosso livro está correta, então as políticas de Stálin terão sido as mais corretas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias.
RK – O ódio a Stálin é tão cego e intenso que alguns críticos do nosso livro dizem que estamos errados e insistem que Stálin foi a causa do colapso da URSS.
P - Vem a propósito uma reflexão vossa sobre a importância do fator subjetivo no socialismo. Segundo afirmam, o papel dos dirigentes é mais decisivo no socialismo do que no capitalismo. Porquê?
TK – O capitalismo cresce enquanto que o socialismo é construído. No livro utilizamos uma metáfora em que comparamos o capitalismo a uma jangada a descer um rio. As possibilidades de dirigir a jangada são reduzidas, ela é arrastada pela força da corrente e apenas se podem fazer algumas pequenas correções na trajetória.
Nesta metáfora, o socialismo é um avião, o qual apesar de ser um meio de transporte incomparavelmente superior exige ser pilotado por uma equipa bem preparada científica e tecnologicamente, capaz de compreender e aplicar conscientemente as leis da ciência.
Ou seja, apesar de o avião ser um sistema superior é vulnerável num sentido em que a jangada não o é. Isto não significa obviamente que devamos abandonar o avião e voltar à jangada, assim como não podemos voltar ao tempo das cavernas, apesar de as nossas casas poderem ruir.
*Alekssandr Iákovlev — responsável a partir de 1985 pelo departamento de propaganda do PCUS, torna-se membro do CC do PCUS em 1986, responsável pelas questões da ideologia, informação e cultura.
Sobe ao politburo em junho de 1986 e é sob proposta sua que são nomeados os diretores dos principais jornais e revistas do país que passam a defender abertamente posições antisocialistas (os jornais Moskovskie Novosti, Sovietskskaia Kultura, Izvestia; as revistas Ogoniok, Znamia, Novi Mir, entre outros). Faz publicar uma série de romances de escritores dissidentes e anti-soviéticos, bem como cerca de 30 filmes antes proibidos. Em agosto de 1991 anuncia a decisão de abandonar o PCUS.
** Iegor Ligatchov – membro do politburo entre 1985 e 1991, foi um dos impulsionadores da campanha anti-álcool (1985-87) e, mais tarde, assumiu-se como um opositor às reformas de Gorbatchov.
Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes
O Sigilo Bancário Suiço em Perigo
Entrevista com Konrad Hummler, dono do banco mais antigo da Suiça
No ano de comemoração dos 500 anos de Calvino, a crise financeira e moral fazem aproximar o capital e a Igreja. Segundo o banqueiro privado Konrad Hummler, tanto as instituições financeiras como os clientes cederam às "tentações" dos lucros – o pecado seria então "mútuo".
Nos últimos tempos muito se escutou que a crise financeira atinge menos os verdadeiros banqueiros privados do que executivos dos grandes bancos. Razão: os executivos reagiram à promessa de altos salários e bonificações.
Já os banqueiros privados arcam com sua própria fortuna para cobrir os possíveis prejuízos das instituições que dirigem e, por isso, suas qualidades morais seriam superiores. Segundo Konrad Hummler, essa característica é parte da herança da tradição calvinista da Suíça.
Essa herança é mantida viva por Konrad Hummler, no Banco Wegelin, de St. Gallen. A mais antiga instituição bancária do país está apenas alguns passos distante do famoso mosteiro da cidade, um símbolo nacional do catolicismo. Muitos suíços desconhecem, porém, que St. Gallen já abrigou uma comunidade protestante, que data dos tempos do reformador Ulrich Zwingli.
swissinfo: Há pouco tempo o senhor, como banqueiro, participou de um debate no contexto do ano de Calvino com teólogos e economistas da Universidade de St. Gallen. O tema foi Deus, dinheiro e como lidar com este na ótica cristã. Isso é possível?
Konrad Hummler: O Reformador genebrino Calvino, cujo 500° aniversário é comemorado este ano, é considerado internacionalmente o precursor do capitalismo. Pois, ao contrário da Igreja católica, ele aceitava negócios a créditos no século XVI.
Mas ele condicionava a cobrança de juros a elevados quesitos morais. Honestidade, fidelidade aos contratos, discrição e também parcimônia foram considerados por muito tempo no exterior como virtudes dos suíços e de seus banqueiros, antes dos tempos atuais em que esses banqueiros perderam algo da sua aura.
P - Com o modelo de negócio dos nossos banqueiros, não teria também o modelo de Calvino perdido muito da sua aura?
R - Tenho lido isso na imprensa helvética desde que comecei a acompanhar os noticiários negativos relativos ao UBS e a outros bancos suíços. Porém não acredito pessoalmente nisso.
O que vivemos na Suíça nos últimos vinte e cinco anos foi uma invasão da atitude anglo-saxã. Ela nos trouxe hábitos, idéias de negócios e uma moral de negócios que nos eram estranhas.
Por exemplo, o costumeiro modelo de compensação com bonificações elevadas no setor de banco de investimento e que se tornou prática nos bancos helvéticos. Isso não tem nada a ver com Calvino.
Esse modelo de banqueiro não combina muito bem com a mentalidade suíça. Esta é menos orientada ao chamado "boom and bust" (altos e baixos) anglo-saxão, ou seja, a uma sucessão cíclica de grandes sucessos, seguidas depois por quebras e demissões.
P - O que é o modelo suíço de fazer negócios?
R - O modelo suíço sempre foi aquele com a constância. Por isso a Suíça, como base do Calvinismo, continuará a existir como importante praça financeira internacional.
É falso acreditar que a autorização dada por Calvino há quinhentos anos atrás de cobrar juros sobre empréstimos seja equivalente a uma carta branca para uma forma desenfreada de gerir bancos.
Mas o fato é que os bancos suíços perderam um pouco do espírito de Calvino, sobretudo em Genebra, a cidade do reformador, onde muitos banqueiros acabaram tendo grandes prejuízos depois de especular bastante. Também na cidade natal de Calvino, com a exceção de um grupo relativamente pequeno de banqueiros privados – e que por isso são fiadores das suas instituições com sua própria fortuna –, houve muitos bancos que cederam às tentações dos lucros elevados. Afinal, estes haviam quase se tornado normais nos últimos tempos.
Porém eles o faziam também a mando da sua clientela. Por isso considero esse um pecado "mútuo".
Atualmente os banqueiros não têm tido muito perdão, pelo menos na opinião pública. O que diria Calvino nessa situação? Eles seriam perdoados por Deus? Calvino tinha sua própria teologia na questão do perdão divino. Ela já foi muito criticada, mas seria agora bem oportuna. Segundo Calvino, o sucesso nos negócios é um sinal do perdão divino e não do mérito próprio.
A consequência disso é que o peso do indivíduo em uma empresa se relativiza, inclusive suas pretensões como, por exemplo, as salariais.
Ou, como falamos hoje no jargão dos banqueiros: um executivo-chefe dificilmente atinge sozinho o return on equity (retorno sobre o patrimônio) da sua empresa. Por isso, Calvino iria dizer hoje em dia: seja mais modesto!
P - Teria Calvino uma receita contra o aumento desses altos e baixos dos ciclos econômicos?
R - Dentro do contexto de que o sucesso é originado através do perdão divino, a perspectiva calvinista acaba ganhando uma certa resistência contra crises econômicas e financeiras, na minha opinião.
"Deus deu. Deus retirou – salvo seja o Senhor", dizia Jó. E esse pensamento encontrou sua continuação em Calvino."
Estou convencido de que essa resistência aos choques mais contribuiu em longo prazo para o sucesso econômico dos países protestantes do que as muito citadas diligência e capacidade de fazer dinheiro.
Isso, pois vejo na resistência aos choques um correspondente à capacidade de assumir riscos. Sociedades que não são capazes de assumir riscos e que não aceitam choques, não são bem-sucedidas em longo prazo.
Investidores de sociedades abertas aos riscos sabem, por outro lado, que eles podem ganhar. Afinal, eles sabem lidar com os choques.
P Se existe uma gestão "calvinista" de bancos, qual seria então sua estratégia de investimento?
R - Uma gestão "calvinista" de bancos seria esclarecer com antecedência e de forma transparente a um cliente quais são os riscos que estará correndo ao investir seu dinheiro.
Nós fomos o primeiro banco no país a tentar ilustrar e quantificar o risco durante os aconselhamentos estratégicos de investimento.
Konrad Hummler nasceu em St. Gallen em 1953, onde freqüentou também a escola. Ele estudou Direito em Zurique e Economia em Rochester, nos Estados Unidos.
De 1981 até 1989 trabalhou para o UBS e foi assistente pessoal do presidente do conselho administrativo do banco, Robert Holzach.
Em 1989, Hummler tornou-se diretor do banco privado Wegelin & Co., com sede em St. Gallen. Essa instituição fui fundada em 1741 e, por isso, é o mais antigo banco da Suíça. Konrad Hummler se tornou co-proprietário do banco em 1991. Dessa forma ele é fiador do banco com sua fortuna pessoal.
Sigilo bancário:
uma questão de
vida ou morte
Para os jornalistas Werner Vontobel e Viktor Parma, a maior parte dos suíços pode viver muito bem sem o sigilo bancário. No livro Suíça, um Estado Vil ? , os dois debatem as origens e consequências de um dos pilares da praça financeira helvética. Swissinfo conversou com um dos autores na redação do jornal semanal "Sonntagsblick".
Um dos mitos mais divulgados sobre o sigilo bancário é de que este teria sido criado para proteger os bens de judeus dos tentáculos nazistas. "Falso", é o que afirmam Werner Vontobel e Viktor Parma.
No seu recém-lançado e polêmico livro Suíça, um Estado Vil?, os dois jornalistas dão a resposta: o segredo bancário foi ancorado na lei depois que expoentes da República de Weimar (na Alemanha) se opuseram veementemente à evasão fiscal massiva apoiada pelos bancos helvéticos na época.
Essas e outras revelações são feitas em 223 páginas, um trabalho de reportagem iniciado quando ainda não havia sinais no horizonte de que o sigilo bancário e outros paraísos fiscais no mundo seriam atacados de todas as direções frente a uma das mais graves crises financeiras vividas nos últimos tempos.
swissinfo: A Suíça é um "Estado vil"? O que o senhor quis dizer com o título do seu livro?
Werner Vontobel: A Suíça é um Estado simpático, mas que em todo caso tem traços de vilania e que, com seu sigilo bancário e uma agressiva política de competitividade fiscal, defende seus interesses de uma forma desconsiderada.
P - Por que a pressão sobre a Suíça e o sigilo bancário aumentou nos últimos tempos? R - Em primeiro lugar: a distribuição de renda e de fortuna se tornou claramente mais excludente em quase todos os países. Ou seja, uma parte cada vez maior do substrato fiscal está nas mãos de alguns poucos ricos que têm mobilidade. Isso reforçou a competitividade fiscal e, por consequência, aumentou ainda mais os danos que ela causa. Em segundo: os países necessitam urgentemente de dinheiro para salvar suas economias do colapso.
P - Qual é a origem do sigilo bancário? Por que ele é tão importante para a Suíça?
R - O sigilo bancário não é um problema em si. Problemático é que o fato dele ser vendido de forma agressiva para ressaltar os aspectos positivos da Suíça como local de investimento com o objetivo de atrair estrangeiros ricos - e seu dinheiro - para o país. Se o sigilo bancário é realmente importante à Suíça, é uma questão que deixo aberta. Seguramente ele contribuiu para estabelecer a Suíça como centro global para a administração de fortunas. Niklaus Blattner, ex-diretor da Associação Suíça dos Banqueiros, acredita hoje que o país não precisa do sigilo bancário para ser bem-sucedido na administração de fortunas. Talvez ele tenha razão.
P - É verdade que o sigilo bancário foi criado para proteger as pessoas, sua esfera privada e suas posses?
R - Seguramente tem algo de verdade nessa afirmação. Porém também é verdade que o sigilo bancário tinha desde o início o propósito de atrair dinheiro estrangeiro para a Suíça.
P -Por que a atual discussão sobre o fim ou reforma do sigilo bancário na Suíça é tão acalorada? Até que ponto o país depende tanto do sistema financeiro e de suas especificidades como o sigilo bancário?
R - Eu também não entendo completamente. A administração de fortunas, afinal, é apenas uma parte relativamente pequena do setor, que ocupa menos de 1% de todos os suíços. Além disso, sabe-se através dos autos judiciais dos Estados Unidos que o UBS conduziu os negócios de sonegação fiscal de uma forma bem maléfica.
No início, as pessoas na Suíça estavam furiosas especialmente com o UBS. O ministro alemão das Finanças, Peer Steinbrück, conseguiu agora com suas declarações arrogantes transmitir a muitos suíços a impressão de estarmos em guerra econômica com outras praças financeiras.
P - Como países em desenvolvimento são atingidos pelo sigilo bancário?
R - Retiramos deles dinheiro dos impostos e mesmo se este não é aplicado corretamente nos países atingidos, a qualidade de vida neles é atingida fortemente por estas perdas. Isso é uma questão de vida ou morte, enquanto nosso padrão de vida através desse excedente de receitas sobre a administração de fortunas não aumenta de forma palpável, se é que aumenta.
Muitos pleiteiam na Suíça que apenas o princípio da competitividade fiscal está sendo defendido e que o problema, na verdade, estaria nos outros países de tributação elevada como Alemanha e França.
P - Qual a sua opinião sobre o tema?
R - Existe uma verdade nisso, mas não cabe aos suíços melhorar as leis fiscais ou a administração de outros países. Além disso, percebemos aqui dentro da Suíça que os paraísos fiscais internos têm uma taxa de tributação muito menos elevadas do que Berna ou Zurique. A competitividade fiscal beneficia pela sua natureza os pequenos cantões contra os grandes. Isso tem pouco a ver com habilidade ou eficiência.
Há pouco o jornal NZZ revelou que mais de dois trilhões de francos de clientes privados são administrados por bancos suíços. Uma grande parte desse dinheiro não foi declarada ao fisco nos países de origem. Uma flexibilização do sigilo bancário não poderia ter graves conseqüências para a Suíça? As conseqüências possivelmente não seriam graves sequer para os administradores de fortuna. Será que a pessoa empobrece se, ao invés de cinco, ganhar apenas três milhões?
P - Em um contexto de crise financeira e econômica – e agora também fiscal – qual será o futuro da praça financeira helvética?
R - Ela irá encolher um pouco. As margens do setor de administração de fortunas não serão tão gordas como antes. Isso é parte da chamada transformação estrutural.
P - A Suíça e outros países europeus aceitam agora as regras da OCDE. Será que o modelo do paraíso fiscal já pertence ao passado? Mas o que o senhor diz de Dubai, Qatar, Ilhas do Canal ou o Estado de Delaware, nos Estados Unidos?
R - Na Suíça cogita-se agora introduzir o modelo de "trust". Também outros paraísos fiscais estão sob pressão. Naturalmente a Suíça pode apontar que ainda existem outros paraísos, mas isso não vai adiantar muito. Além disso, é normal que a pressão sofrida pela Suíça seja maior. Afinal, somos, com grande distância, o maior paraíso fiscal do mundo. Se tentarmos agora criar novos refúgios fiscais, então essa pressão irá aumentar mais ainda. Para mim essas idéias não passam de reações infantis de teimosia.
* Werner Vontobel, 63 anos, trabalha como jornalista especializado em economia para o semanário dominical "SonntagsBlick".
SIGILO BANCÁRIO
TEM HISTÓRIA
O sigilo bancário nasceu juridicamente em 1934, depois da crise ocasionada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929. No mundo em crise entre as duas guerras mundiais, os Estados europeus, decididos a limitar a fuga de capitais para o estrangeiro, iam direto ao assunto. Em 1932, a polícia francesa invadiu a agência do Banco Comercial de Basiléia em Paris e confiscou os dados de milhares de clientes.
Essa violação da legendária tradição de discrição cultivada há séculos pelos banqueiros suíços foi um dos acontecimentos que levou a Confederação Helvética a inscrever o sigilo bancário na lei federal sobre os bancos.
Na realidade, o sigilo bancário garante aos clientes dos bancos suíços que as informações que lhes concernem serão mantidas confidenciais e não serão transmitidas a pessoas físicas, às administrações nem ao fisco. Porém a Suíça manteve uma distinção que caracteriza a especificidade de seu sigilo bancário: a diferença entre evasão e fraude fiscal.
O contribuinte que, intencionalmente ou por negligência, deixar de declarar, por exemplo, parte de sua fortuna, é passível apenas de multa. Em contrapartida, aquele que falsifica documentos (um atestado de salário ou balanço) pratica uma escroqueria que é punível pelo código penal com pena de prisão ou multa. Sob requerimento de um juiz, o sigilo bancário pode ser suspenso em caso de fraude.
Devido a essa distinção, as autoridades helvéticas só aceitam a colaboração administrativa e judiciária com outros países em caso de fraude, não de evasão fiscal.
Em 13 de março de 2009, o governo suíço anunciou que futuramente prestará assistência administrativa a outros países não só em casos de fraude fiscal, como também, "caso por caso" e por "petição concreta e justificada", quando há suspeita de sonegação de impostos.
Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes, com swissinfo
No ano de comemoração dos 500 anos de Calvino, a crise financeira e moral fazem aproximar o capital e a Igreja. Segundo o banqueiro privado Konrad Hummler, tanto as instituições financeiras como os clientes cederam às "tentações" dos lucros – o pecado seria então "mútuo".
Nos últimos tempos muito se escutou que a crise financeira atinge menos os verdadeiros banqueiros privados do que executivos dos grandes bancos. Razão: os executivos reagiram à promessa de altos salários e bonificações.
Já os banqueiros privados arcam com sua própria fortuna para cobrir os possíveis prejuízos das instituições que dirigem e, por isso, suas qualidades morais seriam superiores. Segundo Konrad Hummler, essa característica é parte da herança da tradição calvinista da Suíça.
Essa herança é mantida viva por Konrad Hummler, no Banco Wegelin, de St. Gallen. A mais antiga instituição bancária do país está apenas alguns passos distante do famoso mosteiro da cidade, um símbolo nacional do catolicismo. Muitos suíços desconhecem, porém, que St. Gallen já abrigou uma comunidade protestante, que data dos tempos do reformador Ulrich Zwingli.
swissinfo: Há pouco tempo o senhor, como banqueiro, participou de um debate no contexto do ano de Calvino com teólogos e economistas da Universidade de St. Gallen. O tema foi Deus, dinheiro e como lidar com este na ótica cristã. Isso é possível?
Konrad Hummler: O Reformador genebrino Calvino, cujo 500° aniversário é comemorado este ano, é considerado internacionalmente o precursor do capitalismo. Pois, ao contrário da Igreja católica, ele aceitava negócios a créditos no século XVI.
Mas ele condicionava a cobrança de juros a elevados quesitos morais. Honestidade, fidelidade aos contratos, discrição e também parcimônia foram considerados por muito tempo no exterior como virtudes dos suíços e de seus banqueiros, antes dos tempos atuais em que esses banqueiros perderam algo da sua aura.
P - Com o modelo de negócio dos nossos banqueiros, não teria também o modelo de Calvino perdido muito da sua aura?
R - Tenho lido isso na imprensa helvética desde que comecei a acompanhar os noticiários negativos relativos ao UBS e a outros bancos suíços. Porém não acredito pessoalmente nisso.
O que vivemos na Suíça nos últimos vinte e cinco anos foi uma invasão da atitude anglo-saxã. Ela nos trouxe hábitos, idéias de negócios e uma moral de negócios que nos eram estranhas.
Por exemplo, o costumeiro modelo de compensação com bonificações elevadas no setor de banco de investimento e que se tornou prática nos bancos helvéticos. Isso não tem nada a ver com Calvino.
Esse modelo de banqueiro não combina muito bem com a mentalidade suíça. Esta é menos orientada ao chamado "boom and bust" (altos e baixos) anglo-saxão, ou seja, a uma sucessão cíclica de grandes sucessos, seguidas depois por quebras e demissões.
P - O que é o modelo suíço de fazer negócios?
R - O modelo suíço sempre foi aquele com a constância. Por isso a Suíça, como base do Calvinismo, continuará a existir como importante praça financeira internacional.
É falso acreditar que a autorização dada por Calvino há quinhentos anos atrás de cobrar juros sobre empréstimos seja equivalente a uma carta branca para uma forma desenfreada de gerir bancos.
Mas o fato é que os bancos suíços perderam um pouco do espírito de Calvino, sobretudo em Genebra, a cidade do reformador, onde muitos banqueiros acabaram tendo grandes prejuízos depois de especular bastante. Também na cidade natal de Calvino, com a exceção de um grupo relativamente pequeno de banqueiros privados – e que por isso são fiadores das suas instituições com sua própria fortuna –, houve muitos bancos que cederam às tentações dos lucros elevados. Afinal, estes haviam quase se tornado normais nos últimos tempos.
Porém eles o faziam também a mando da sua clientela. Por isso considero esse um pecado "mútuo".
Atualmente os banqueiros não têm tido muito perdão, pelo menos na opinião pública. O que diria Calvino nessa situação? Eles seriam perdoados por Deus? Calvino tinha sua própria teologia na questão do perdão divino. Ela já foi muito criticada, mas seria agora bem oportuna. Segundo Calvino, o sucesso nos negócios é um sinal do perdão divino e não do mérito próprio.
A consequência disso é que o peso do indivíduo em uma empresa se relativiza, inclusive suas pretensões como, por exemplo, as salariais.
Ou, como falamos hoje no jargão dos banqueiros: um executivo-chefe dificilmente atinge sozinho o return on equity (retorno sobre o patrimônio) da sua empresa. Por isso, Calvino iria dizer hoje em dia: seja mais modesto!
P - Teria Calvino uma receita contra o aumento desses altos e baixos dos ciclos econômicos?
R - Dentro do contexto de que o sucesso é originado através do perdão divino, a perspectiva calvinista acaba ganhando uma certa resistência contra crises econômicas e financeiras, na minha opinião.
"Deus deu. Deus retirou – salvo seja o Senhor", dizia Jó. E esse pensamento encontrou sua continuação em Calvino."
Estou convencido de que essa resistência aos choques mais contribuiu em longo prazo para o sucesso econômico dos países protestantes do que as muito citadas diligência e capacidade de fazer dinheiro.
Isso, pois vejo na resistência aos choques um correspondente à capacidade de assumir riscos. Sociedades que não são capazes de assumir riscos e que não aceitam choques, não são bem-sucedidas em longo prazo.
Investidores de sociedades abertas aos riscos sabem, por outro lado, que eles podem ganhar. Afinal, eles sabem lidar com os choques.
P Se existe uma gestão "calvinista" de bancos, qual seria então sua estratégia de investimento?
R - Uma gestão "calvinista" de bancos seria esclarecer com antecedência e de forma transparente a um cliente quais são os riscos que estará correndo ao investir seu dinheiro.
Nós fomos o primeiro banco no país a tentar ilustrar e quantificar o risco durante os aconselhamentos estratégicos de investimento.
Konrad Hummler nasceu em St. Gallen em 1953, onde freqüentou também a escola. Ele estudou Direito em Zurique e Economia em Rochester, nos Estados Unidos.
De 1981 até 1989 trabalhou para o UBS e foi assistente pessoal do presidente do conselho administrativo do banco, Robert Holzach.
Em 1989, Hummler tornou-se diretor do banco privado Wegelin & Co., com sede em St. Gallen. Essa instituição fui fundada em 1741 e, por isso, é o mais antigo banco da Suíça. Konrad Hummler se tornou co-proprietário do banco em 1991. Dessa forma ele é fiador do banco com sua fortuna pessoal.
Sigilo bancário:
uma questão de
vida ou morte
Para os jornalistas Werner Vontobel e Viktor Parma, a maior parte dos suíços pode viver muito bem sem o sigilo bancário. No livro Suíça, um Estado Vil ? , os dois debatem as origens e consequências de um dos pilares da praça financeira helvética. Swissinfo conversou com um dos autores na redação do jornal semanal "Sonntagsblick".
Um dos mitos mais divulgados sobre o sigilo bancário é de que este teria sido criado para proteger os bens de judeus dos tentáculos nazistas. "Falso", é o que afirmam Werner Vontobel e Viktor Parma.
No seu recém-lançado e polêmico livro Suíça, um Estado Vil?, os dois jornalistas dão a resposta: o segredo bancário foi ancorado na lei depois que expoentes da República de Weimar (na Alemanha) se opuseram veementemente à evasão fiscal massiva apoiada pelos bancos helvéticos na época.
Essas e outras revelações são feitas em 223 páginas, um trabalho de reportagem iniciado quando ainda não havia sinais no horizonte de que o sigilo bancário e outros paraísos fiscais no mundo seriam atacados de todas as direções frente a uma das mais graves crises financeiras vividas nos últimos tempos.
swissinfo: A Suíça é um "Estado vil"? O que o senhor quis dizer com o título do seu livro?
Werner Vontobel: A Suíça é um Estado simpático, mas que em todo caso tem traços de vilania e que, com seu sigilo bancário e uma agressiva política de competitividade fiscal, defende seus interesses de uma forma desconsiderada.
P - Por que a pressão sobre a Suíça e o sigilo bancário aumentou nos últimos tempos? R - Em primeiro lugar: a distribuição de renda e de fortuna se tornou claramente mais excludente em quase todos os países. Ou seja, uma parte cada vez maior do substrato fiscal está nas mãos de alguns poucos ricos que têm mobilidade. Isso reforçou a competitividade fiscal e, por consequência, aumentou ainda mais os danos que ela causa. Em segundo: os países necessitam urgentemente de dinheiro para salvar suas economias do colapso.
P - Qual é a origem do sigilo bancário? Por que ele é tão importante para a Suíça?
R - O sigilo bancário não é um problema em si. Problemático é que o fato dele ser vendido de forma agressiva para ressaltar os aspectos positivos da Suíça como local de investimento com o objetivo de atrair estrangeiros ricos - e seu dinheiro - para o país. Se o sigilo bancário é realmente importante à Suíça, é uma questão que deixo aberta. Seguramente ele contribuiu para estabelecer a Suíça como centro global para a administração de fortunas. Niklaus Blattner, ex-diretor da Associação Suíça dos Banqueiros, acredita hoje que o país não precisa do sigilo bancário para ser bem-sucedido na administração de fortunas. Talvez ele tenha razão.
P - É verdade que o sigilo bancário foi criado para proteger as pessoas, sua esfera privada e suas posses?
R - Seguramente tem algo de verdade nessa afirmação. Porém também é verdade que o sigilo bancário tinha desde o início o propósito de atrair dinheiro estrangeiro para a Suíça.
P -Por que a atual discussão sobre o fim ou reforma do sigilo bancário na Suíça é tão acalorada? Até que ponto o país depende tanto do sistema financeiro e de suas especificidades como o sigilo bancário?
R - Eu também não entendo completamente. A administração de fortunas, afinal, é apenas uma parte relativamente pequena do setor, que ocupa menos de 1% de todos os suíços. Além disso, sabe-se através dos autos judiciais dos Estados Unidos que o UBS conduziu os negócios de sonegação fiscal de uma forma bem maléfica.
No início, as pessoas na Suíça estavam furiosas especialmente com o UBS. O ministro alemão das Finanças, Peer Steinbrück, conseguiu agora com suas declarações arrogantes transmitir a muitos suíços a impressão de estarmos em guerra econômica com outras praças financeiras.
P - Como países em desenvolvimento são atingidos pelo sigilo bancário?
R - Retiramos deles dinheiro dos impostos e mesmo se este não é aplicado corretamente nos países atingidos, a qualidade de vida neles é atingida fortemente por estas perdas. Isso é uma questão de vida ou morte, enquanto nosso padrão de vida através desse excedente de receitas sobre a administração de fortunas não aumenta de forma palpável, se é que aumenta.
Muitos pleiteiam na Suíça que apenas o princípio da competitividade fiscal está sendo defendido e que o problema, na verdade, estaria nos outros países de tributação elevada como Alemanha e França.
P - Qual a sua opinião sobre o tema?
R - Existe uma verdade nisso, mas não cabe aos suíços melhorar as leis fiscais ou a administração de outros países. Além disso, percebemos aqui dentro da Suíça que os paraísos fiscais internos têm uma taxa de tributação muito menos elevadas do que Berna ou Zurique. A competitividade fiscal beneficia pela sua natureza os pequenos cantões contra os grandes. Isso tem pouco a ver com habilidade ou eficiência.
Há pouco o jornal NZZ revelou que mais de dois trilhões de francos de clientes privados são administrados por bancos suíços. Uma grande parte desse dinheiro não foi declarada ao fisco nos países de origem. Uma flexibilização do sigilo bancário não poderia ter graves conseqüências para a Suíça? As conseqüências possivelmente não seriam graves sequer para os administradores de fortuna. Será que a pessoa empobrece se, ao invés de cinco, ganhar apenas três milhões?
P - Em um contexto de crise financeira e econômica – e agora também fiscal – qual será o futuro da praça financeira helvética?
R - Ela irá encolher um pouco. As margens do setor de administração de fortunas não serão tão gordas como antes. Isso é parte da chamada transformação estrutural.
P - A Suíça e outros países europeus aceitam agora as regras da OCDE. Será que o modelo do paraíso fiscal já pertence ao passado? Mas o que o senhor diz de Dubai, Qatar, Ilhas do Canal ou o Estado de Delaware, nos Estados Unidos?
R - Na Suíça cogita-se agora introduzir o modelo de "trust". Também outros paraísos fiscais estão sob pressão. Naturalmente a Suíça pode apontar que ainda existem outros paraísos, mas isso não vai adiantar muito. Além disso, é normal que a pressão sofrida pela Suíça seja maior. Afinal, somos, com grande distância, o maior paraíso fiscal do mundo. Se tentarmos agora criar novos refúgios fiscais, então essa pressão irá aumentar mais ainda. Para mim essas idéias não passam de reações infantis de teimosia.
* Werner Vontobel, 63 anos, trabalha como jornalista especializado em economia para o semanário dominical "SonntagsBlick".
SIGILO BANCÁRIO
TEM HISTÓRIA
O sigilo bancário nasceu juridicamente em 1934, depois da crise ocasionada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929. No mundo em crise entre as duas guerras mundiais, os Estados europeus, decididos a limitar a fuga de capitais para o estrangeiro, iam direto ao assunto. Em 1932, a polícia francesa invadiu a agência do Banco Comercial de Basiléia em Paris e confiscou os dados de milhares de clientes.
Essa violação da legendária tradição de discrição cultivada há séculos pelos banqueiros suíços foi um dos acontecimentos que levou a Confederação Helvética a inscrever o sigilo bancário na lei federal sobre os bancos.
Na realidade, o sigilo bancário garante aos clientes dos bancos suíços que as informações que lhes concernem serão mantidas confidenciais e não serão transmitidas a pessoas físicas, às administrações nem ao fisco. Porém a Suíça manteve uma distinção que caracteriza a especificidade de seu sigilo bancário: a diferença entre evasão e fraude fiscal.
O contribuinte que, intencionalmente ou por negligência, deixar de declarar, por exemplo, parte de sua fortuna, é passível apenas de multa. Em contrapartida, aquele que falsifica documentos (um atestado de salário ou balanço) pratica uma escroqueria que é punível pelo código penal com pena de prisão ou multa. Sob requerimento de um juiz, o sigilo bancário pode ser suspenso em caso de fraude.
Devido a essa distinção, as autoridades helvéticas só aceitam a colaboração administrativa e judiciária com outros países em caso de fraude, não de evasão fiscal.
Em 13 de março de 2009, o governo suíço anunciou que futuramente prestará assistência administrativa a outros países não só em casos de fraude fiscal, como também, "caso por caso" e por "petição concreta e justificada", quando há suspeita de sonegação de impostos.
Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes, com swissinfo
Transformações: matrizes do séc. XXI

Por Estrella Bohadana*
Transformações: Matrizes do Século XXI é o legado com que René Armand Dreifuss, um dos mais brilhantes cientistas políticos da atualidade, falecido em maio de 2003, agracia o leitor. Trata-se de sua obra póstuma.
Com quase 700 páginas, o autor do clássico 1964: A Conquista do Estado, publicado também pela Editora Vozes, em 1980, aumenta o acervo de suas fascinantes pesquisas, apresentando, mais uma vez, um pensamento de fina prospecção, agudeza e ousadia, sempre disposto a analisar e a denunciar os diferentes liames que tecem os fios do poder.
Mergulhando nas várias articulações das corporações que constituem o sistema de produção global, em Transformações: Matrizes do Século XXI, Dreifuss desvenda os vínculos entre as diferentes corporações e o modo pelo qual estas alimentam as “tecnognoseonomias” e os pólos motores de desenvolvimento tecnológico e de produção – estes de alcance global e matricial – e por eles são alimentados.
Em “Transformações: Matrizes do Século XXI”, Dreifuss apresenta uma investigação rica e minuciosa das mutações tecnológicas, permitindo aprofundar dois conceitos importantes, elaborados em sua obra “A Época das Perplexidades”, de 1996, publicado pela Editora Vozes, hoje na 4a edição, a saber: o de capacitador “teleinfocomputrônico satelital” e o de “tecnobergs”.
No que se refere ao capacitador “teleinfocomputrônico satelital”, esse aprofundamento conceitual revela-se quando o autor demonstra que, como potência, o capacitador retroalimenta as mais diversas descobertas científicas, além de se constituir em potente suporte viabilizador de um novo modo de produção e de novas organizações sociais da produção, ambos sinergeticamente transnacionalizados e realizando-se de maneira global.
A partir dessa formulação, o autor afirma que, possibilitados pelos sistemas de comunicação digitalizada, o planeta ingressa em uma forma de existência que supera distâncias, propiciando inovações na mobilidade e na agregação social, facilitando, para alguns grupos sociais, a vinculação sistemática, constante, ampla e profunda dos “muito distantes” (em termos de personalidade, cultura e geografia), ao mesmo tempo que promove a segregação de outros grupos –basta verificar a diminuta participação dos países que constituem o eixo Sul-Sul.
Esses sistemas, por sua vez, ao provocar seqüências de interação pontual, serial e circunstancial, tornam-se manifestações que se processam tanto dentro de perímetros nacionais, estando espacialmente localizadas, quanto em espaços transfronteiriços, como eventos desterritorializados.
Dessa maneira, tais sistemas desempenham papéis essenciais como insumo e como produto final; além disso, simultaneamente, constituem-se como instrumento de produção e de serviço e operador em tempo real.
Tendo como traço marcante sua difusão mundial em curtíssimo intervalo de tempo, tratam-se de tecnologias aplicadas em todas as atividades do planeta, vinculadas completamente ao existir humano e afetando todas as funções societárias. Assim, estando a comunicação no comando do cotidiano, o complexo capacitador “teleinfocomputrônico satelital” delineia também outro paradigma cognitivo.
Aprofundado o conceito do capacitador, Dreifuss, de forma engenhosa, demarca um novo estádio para designar os “tecnobergs”, que passariam a determinar os processos de modificações substanciais nos horizontes e no sentido de vida, reformulando as relações entre estados, delineando uma nova heterotopia econômica transnacional e uma nova ordem internacional e transfronteiriça do conhecimento, ambas acopladas a uma heterarquia político-estratégica.
Esboçam-se, portanto, os elementos constituintes de um outro modo de organização social da produção globalizada, que demanda uma profunda reorganização empresarial, com conseqüências no comércio entre as nações, o que contribui para o desemprego estrutural, em seu formato atual, e para o lazer ampliado de grupos seletos.
Ademais são estimuladas novas dimensões da pesquisa e da utilização da ciência e da tecnologia, direcionando o processo de produção de conhecimento, de desenvolvimento de saberes e destrezas, bem como de sua aplicação, fortalecendo, como “gnoseonomia”, os entornos da “oikonomia”.
No cerne dos “tecnobergs”, as corporações, que se configuravam em função de uma racionalidade bipolar (doméstico-multidoméstico, local-multinacional) de instalação das indústrias e dos serviços, passam a ser globalizadas.
Estes “tecnobergs” alavancam três fenômenos multifacetados, simultâneos, diferenciados e que se reforçam mutuamente: a mundialização de estilos, usos e costumes (metanacional); a globalização tecnológica, produtiva e comercial (transnacional); e a planetarização da gestão (supranacional).
Esses fenômenos (também conceituados em A Época das Perplexidades) são discutidos agora a partir do amplo acoplamento do processo de concentração de controle de propriedade dos meios de produção e comercialização, que se dá em cada segmento dos produtos de consumo de massa.
Esse processo de concentração é visto no livro por meio das fusões, alianças e aquisições, em movimentos transnacionais (intra, inter e multissetoriais) e apoiado na interação potencializadora dos variados conhecimentos, interligando ainda mais os processos de mundialização e de globalização.
Nessa nova dinâmica, ao concentrar a propriedade e o controle dos agentes, oligopolizar os meios de pesquisa e a produção por meio de fusões e incorporações – por alianças e joint ventures, por aquisições e absorções – a nova fase do processo de mundialização e de globalização assegura a produção transnacional, realizada e centrada no que será definido pelo autor como corporações estratégicas.
De maneira inusitada, Dreifuss demonstra como as corporações estratégicas, interagindo por meio de matrizes, passam a definir suas core competences, num processo concentracionista que desmonta a lógica anteriormente prevalecente de grandes conglomerados de capital com investimentos diversificados, estipulando agora uma nova relação entre ciência e tecnologia como eixo de refocalização das cadeias produtivas.
Ao mesmo tempo, o autor apresenta como se dá a “transição-em-rede das redes” para um tecido de pesquisa e produção transnacional, muito mais complexo em seu desenho produtivo e de comercialização, sustentado por conhecimentos e agindo como concentrador de capacidades. Para Dreifuss, neste cenário, configura-se uma sucessão infindável de compras, vendas, desmantelamentos e integrações complementares.
Como desdobramento, forma-se, também, uma “heterotopia tecnoprodutiva” multinacional, transitória em tempo e em referências, configurando rapidamente uma equivalência “gnoseogeonômica”, ambas determinadas pelo entrelaçamento de focos indutores de ciência e tecnologia, com a correspondente concentração de conhecimento e disponibilidade para realizações de ponta, através de pólos motores tecnoprodutivos e de plataformas terceirizantes e quarteirizantes de produção e comercialização.
A integração global de operações empresariais e atividades tecnoprodutivas, afirma o autor, compreende não só a luta por mercados e sua partilha, mas o desenvolvimento de estratégias corporativas de participação nos mercados, buscando formas de compartilhá-los.
A lógica da infonomia ou da “gnoseonomia” dos “tecnobergs” e da formação de sociedades de informação é a da primazia das core competences e da determinação de padrões a partir delas, com base na dinâmica de integração de meio, mensagem e conteúdo. Partindo de cada segmento, procura-se expertise nos outros, assim como complementação.
De maneira brilhante, encontramos em Transformações: Matrizes do Século XXI o modo pelo qual as corporações estratégicas do complexo capacitador de conteúdo buscam a fusão ou a absorção de corporações que possam viabilizar suas opções de comando e indução científico-tecnológica (ou seja, que lhes permitam dominar os vários segmentos de conhecimento que o compõem) e de predominância tecnonômica no espaço multimidiático e multifuncional do emergente sistema teleinfocomputrônico satelital de produção e de serviços.
As empresas procuram controlar o formato, os meios e o conteúdo.
E, finalmente, o autor, retomando os conceitos de mundialização, globalização e planetarização revela a maneira como a nova dinâmica galgada por esses fenômenos, bem como as tendências à configuração de hierarquias de conhecimento mutáveis, “heterotopias-em-recomposição” de pesquisa e produção, poliarquias supranacionais em gestação e “heterarquias político-estratégicas” convergentes implicam uma multiforme e complexa emergência e constituição de uma nova realidade.
Realidade paradoxal, posto que – concomitantemente a esse processo – se configura uma outra realidade, na qual uma significativa parcela da população mundial se encontra alijada dos benefícios de tamanha concentração de conhecimento gerados pelos “tecnobergs”.
Portanto, é imperativo que se repense outros caminhos que possibilitem um novo caminhar, a fim de devolver à humanidade a crença de que é possível fazer do planeta Terra um habitat digno da nossa existência.
E, em memória a René Armand Dreifuss, que acreditou na possibilidade de o homem transformar a realidade, nada como lembrar a frase com a qual encerra o seu Transformações: Matrizes do Século XXI: “E o jogo continua...”
René Armand Dreifuss - A Época das Perplexidades - Mundialização, Globalização e Planetarização: Novos Desafios, Editora Vozes, 2004.
* Estrella Bohadana é filósofa, doutora em História dos Sistemas de Pensamento – Escola de Comunicação da UFRJ –, autora de vários livros e artigos e integrante do corpo docente do Mestrado em Educação e Cultura Contemporânea da UNESA – Rio de Janeiro. Esposa de René Dreifuss e responsável pela editoração da obra póstuma, incluindo “Transformações: Matrizes do Século XXI”, publicado pela Editora Vozes, em 2004.
http://www.espacoacademico.com.br
Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes
Transformações: Matrizes do Século XXI é o legado com que René Armand Dreifuss, um dos mais brilhantes cientistas políticos da atualidade, falecido em maio de 2003, agracia o leitor. Trata-se de sua obra póstuma.
Com quase 700 páginas, o autor do clássico 1964: A Conquista do Estado, publicado também pela Editora Vozes, em 1980, aumenta o acervo de suas fascinantes pesquisas, apresentando, mais uma vez, um pensamento de fina prospecção, agudeza e ousadia, sempre disposto a analisar e a denunciar os diferentes liames que tecem os fios do poder.
Mergulhando nas várias articulações das corporações que constituem o sistema de produção global, em Transformações: Matrizes do Século XXI, Dreifuss desvenda os vínculos entre as diferentes corporações e o modo pelo qual estas alimentam as “tecnognoseonomias” e os pólos motores de desenvolvimento tecnológico e de produção – estes de alcance global e matricial – e por eles são alimentados.
Em “Transformações: Matrizes do Século XXI”, Dreifuss apresenta uma investigação rica e minuciosa das mutações tecnológicas, permitindo aprofundar dois conceitos importantes, elaborados em sua obra “A Época das Perplexidades”, de 1996, publicado pela Editora Vozes, hoje na 4a edição, a saber: o de capacitador “teleinfocomputrônico satelital” e o de “tecnobergs”.
No que se refere ao capacitador “teleinfocomputrônico satelital”, esse aprofundamento conceitual revela-se quando o autor demonstra que, como potência, o capacitador retroalimenta as mais diversas descobertas científicas, além de se constituir em potente suporte viabilizador de um novo modo de produção e de novas organizações sociais da produção, ambos sinergeticamente transnacionalizados e realizando-se de maneira global.
A partir dessa formulação, o autor afirma que, possibilitados pelos sistemas de comunicação digitalizada, o planeta ingressa em uma forma de existência que supera distâncias, propiciando inovações na mobilidade e na agregação social, facilitando, para alguns grupos sociais, a vinculação sistemática, constante, ampla e profunda dos “muito distantes” (em termos de personalidade, cultura e geografia), ao mesmo tempo que promove a segregação de outros grupos –basta verificar a diminuta participação dos países que constituem o eixo Sul-Sul.
Esses sistemas, por sua vez, ao provocar seqüências de interação pontual, serial e circunstancial, tornam-se manifestações que se processam tanto dentro de perímetros nacionais, estando espacialmente localizadas, quanto em espaços transfronteiriços, como eventos desterritorializados.
Dessa maneira, tais sistemas desempenham papéis essenciais como insumo e como produto final; além disso, simultaneamente, constituem-se como instrumento de produção e de serviço e operador em tempo real.
Tendo como traço marcante sua difusão mundial em curtíssimo intervalo de tempo, tratam-se de tecnologias aplicadas em todas as atividades do planeta, vinculadas completamente ao existir humano e afetando todas as funções societárias. Assim, estando a comunicação no comando do cotidiano, o complexo capacitador “teleinfocomputrônico satelital” delineia também outro paradigma cognitivo.
Aprofundado o conceito do capacitador, Dreifuss, de forma engenhosa, demarca um novo estádio para designar os “tecnobergs”, que passariam a determinar os processos de modificações substanciais nos horizontes e no sentido de vida, reformulando as relações entre estados, delineando uma nova heterotopia econômica transnacional e uma nova ordem internacional e transfronteiriça do conhecimento, ambas acopladas a uma heterarquia político-estratégica.
Esboçam-se, portanto, os elementos constituintes de um outro modo de organização social da produção globalizada, que demanda uma profunda reorganização empresarial, com conseqüências no comércio entre as nações, o que contribui para o desemprego estrutural, em seu formato atual, e para o lazer ampliado de grupos seletos.
Ademais são estimuladas novas dimensões da pesquisa e da utilização da ciência e da tecnologia, direcionando o processo de produção de conhecimento, de desenvolvimento de saberes e destrezas, bem como de sua aplicação, fortalecendo, como “gnoseonomia”, os entornos da “oikonomia”.
No cerne dos “tecnobergs”, as corporações, que se configuravam em função de uma racionalidade bipolar (doméstico-multidoméstico, local-multinacional) de instalação das indústrias e dos serviços, passam a ser globalizadas.
Estes “tecnobergs” alavancam três fenômenos multifacetados, simultâneos, diferenciados e que se reforçam mutuamente: a mundialização de estilos, usos e costumes (metanacional); a globalização tecnológica, produtiva e comercial (transnacional); e a planetarização da gestão (supranacional).
Esses fenômenos (também conceituados em A Época das Perplexidades) são discutidos agora a partir do amplo acoplamento do processo de concentração de controle de propriedade dos meios de produção e comercialização, que se dá em cada segmento dos produtos de consumo de massa.
Esse processo de concentração é visto no livro por meio das fusões, alianças e aquisições, em movimentos transnacionais (intra, inter e multissetoriais) e apoiado na interação potencializadora dos variados conhecimentos, interligando ainda mais os processos de mundialização e de globalização.
Nessa nova dinâmica, ao concentrar a propriedade e o controle dos agentes, oligopolizar os meios de pesquisa e a produção por meio de fusões e incorporações – por alianças e joint ventures, por aquisições e absorções – a nova fase do processo de mundialização e de globalização assegura a produção transnacional, realizada e centrada no que será definido pelo autor como corporações estratégicas.
De maneira inusitada, Dreifuss demonstra como as corporações estratégicas, interagindo por meio de matrizes, passam a definir suas core competences, num processo concentracionista que desmonta a lógica anteriormente prevalecente de grandes conglomerados de capital com investimentos diversificados, estipulando agora uma nova relação entre ciência e tecnologia como eixo de refocalização das cadeias produtivas.
Ao mesmo tempo, o autor apresenta como se dá a “transição-em-rede das redes” para um tecido de pesquisa e produção transnacional, muito mais complexo em seu desenho produtivo e de comercialização, sustentado por conhecimentos e agindo como concentrador de capacidades. Para Dreifuss, neste cenário, configura-se uma sucessão infindável de compras, vendas, desmantelamentos e integrações complementares.
Como desdobramento, forma-se, também, uma “heterotopia tecnoprodutiva” multinacional, transitória em tempo e em referências, configurando rapidamente uma equivalência “gnoseogeonômica”, ambas determinadas pelo entrelaçamento de focos indutores de ciência e tecnologia, com a correspondente concentração de conhecimento e disponibilidade para realizações de ponta, através de pólos motores tecnoprodutivos e de plataformas terceirizantes e quarteirizantes de produção e comercialização.
A integração global de operações empresariais e atividades tecnoprodutivas, afirma o autor, compreende não só a luta por mercados e sua partilha, mas o desenvolvimento de estratégias corporativas de participação nos mercados, buscando formas de compartilhá-los.
A lógica da infonomia ou da “gnoseonomia” dos “tecnobergs” e da formação de sociedades de informação é a da primazia das core competences e da determinação de padrões a partir delas, com base na dinâmica de integração de meio, mensagem e conteúdo. Partindo de cada segmento, procura-se expertise nos outros, assim como complementação.
De maneira brilhante, encontramos em Transformações: Matrizes do Século XXI o modo pelo qual as corporações estratégicas do complexo capacitador de conteúdo buscam a fusão ou a absorção de corporações que possam viabilizar suas opções de comando e indução científico-tecnológica (ou seja, que lhes permitam dominar os vários segmentos de conhecimento que o compõem) e de predominância tecnonômica no espaço multimidiático e multifuncional do emergente sistema teleinfocomputrônico satelital de produção e de serviços.
As empresas procuram controlar o formato, os meios e o conteúdo.
E, finalmente, o autor, retomando os conceitos de mundialização, globalização e planetarização revela a maneira como a nova dinâmica galgada por esses fenômenos, bem como as tendências à configuração de hierarquias de conhecimento mutáveis, “heterotopias-em-recomposição” de pesquisa e produção, poliarquias supranacionais em gestação e “heterarquias político-estratégicas” convergentes implicam uma multiforme e complexa emergência e constituição de uma nova realidade.
Realidade paradoxal, posto que – concomitantemente a esse processo – se configura uma outra realidade, na qual uma significativa parcela da população mundial se encontra alijada dos benefícios de tamanha concentração de conhecimento gerados pelos “tecnobergs”.
Portanto, é imperativo que se repense outros caminhos que possibilitem um novo caminhar, a fim de devolver à humanidade a crença de que é possível fazer do planeta Terra um habitat digno da nossa existência.
E, em memória a René Armand Dreifuss, que acreditou na possibilidade de o homem transformar a realidade, nada como lembrar a frase com a qual encerra o seu Transformações: Matrizes do Século XXI: “E o jogo continua...”
René Armand Dreifuss - A Época das Perplexidades - Mundialização, Globalização e Planetarização: Novos Desafios, Editora Vozes, 2004.
* Estrella Bohadana é filósofa, doutora em História dos Sistemas de Pensamento – Escola de Comunicação da UFRJ –, autora de vários livros e artigos e integrante do corpo docente do Mestrado em Educação e Cultura Contemporânea da UNESA – Rio de Janeiro. Esposa de René Dreifuss e responsável pela editoração da obra póstuma, incluindo “Transformações: Matrizes do Século XXI”, publicado pela Editora Vozes, em 2004.
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Pesquisa, copy e edição – Flavio Deckes
Financeirização do noticiário

Nos cadernos de economia da grande imprensa, é possível verificar um amplo domínio de temas relacionados ao mercado financeiro.
A constatação é da jornalista Paula Puliti, que analisou, em sua pesquisa de doutorado, os jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo no período de 1989 a 2002. Comportamento do mercado de ações, medidas do Banco Central, reformas tributárias, contas públicas e rigidez fiscal foram alguns dos assuntos mais enfatizados nos jornais.
Tal aspecto no jornalismo econômico foi chamado pela pesquisadora de “financeirização do noticiário”.
A pesquisa fez parte de sua tese de doutorado, orientada pelo professor Bernardo Kucinski e defendida em novembro de 2009 na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP.
Paula afirma que essa financeirização começou a ficar evidente já em 1990, quando os profissionais do mercado financeiro passaram a ser as principais fontes nos cadernos de economia. Entre eles, estão: operador de mercado de ações, banqueiros, economistas de bancos, FMI e Banco Mundial. Fontes do mercado financeiro predominaram em 73,25% das 2340 notícias lidas
Complementar a esse fato, a pesquisa mostrou que esses profissionais, a partir de 1992, deixaram de aparecer exclusivamente em matérias sobre investimentos e passaram a influenciar nas ações do governo, conquistando espaço na opinião de temas de política econômica.
Dez anos depois, no primeiro semestre de 2002, segundo a pesquisa, eles já representavam 52,2% das fontes consultadas pela Folha e o Estadão.
A jornalista destaca que o próprio contexto da época propiciou isso, com o Consenso de Washington – conjunto de medidas econômicas formuladas em 1989, em Washington, famosa por introduzir o receituário neoliberal do FMI – e com a adoção de um modelo econômico neoliberal por parte do governo brasileiro.
Devido aos jornais reservarem espaço privilegiado ao governo, eles acabam absorvendo a visão econômica deste, como explica Paula: “Se você considerar matérias do alto de página, onde estão as principais matérias dos jornais, quem são as principais fontes? O governo. Você tem o governo trazendo para o noticiário os temas de interesse dos bancos”.
Capacitação
A pesquisa mostra que outro fator que influenciou a financeirização dos jornais é o esforço que o mercado financeiro fez para expandir sua influência nos meios de comunicação. “O mercado financeiro se capacitou comunicacionalmente para ser enxergado pelos jornalistas como a grande voz em termos do que é bom para a economia do País”, diz Paula.
Os bancos se capacitaram investindo em assessoria de imprensa e em media training – treinamento dado em empresas para saber como se comunicar com os órgãos de imprensa –e enviando freqüentemente relatórios aos jornalistas.
Paula lembra que, com a redemocratização no País, após 1989, os bancos buscam “ganhar destaque na sociedade”, diz a jornalista. Uma das formas mais eficaz para atingir essa meta foi com os bancos levando seu papel e seu ponto de vista à imprensa.
Paula recorda que na década de 1980 a grande imprensa ainda dava considerável destaque às indústrias e, ainda que em menor grau, aos sindicalistas. Essas e outras vozes foram sobrepostas pelo mercado financeiro na década de 1990.
Na opinião da jornalista, isso causou somente prejuízos para o jornalismo econômico. “Com a financeirização do noticiário, não vejo nada de positivo em um jornalismo que se vende a uma idéia”, justifica Paula. E completa:
“A imprensa tem papel democrático a exercer no mundo. Esse papel democrático implica, entre outras coisas, dar vozes a diferentes autores sociais. Se você tem um jornalismo financeirizado, quer dizer, se você tem apenas um grupo falando em nome de toda a sociedade, você foge desse caráter democrático”.
Pesquisa
Paula analisou, respectivamente, 1340 e 1000 notícias dos cadernos de economia do Estadão e da Folha. As notícias, que são do período de 1989 a 2002, não foram lidas de modo a comparar o conteúdo de cada jornal, mas somente para quantificar a presença das fontes e temas relacionados ao mercado financeiro.
Da amostra de 2340 notícias, em 73,25% predominavam fontes do setor financeiro.
Além disso, a jornalista complementou seu trabalho com 10 entrevistas, que incluem economistas do mercado financeiro, jornalistas de redação, acadêmicos e banqueiros. As entrevistas serviram para estabelecer a relação entre os dados obtidos e o comportamento das organizações.
Por Felipe Maeda Camargo
pulitipaula@hotmail.com
Copy e edição - Flavio Deckes
Tal aspecto no jornalismo econômico foi chamado pela pesquisadora de “financeirização do noticiário”.
A pesquisa fez parte de sua tese de doutorado, orientada pelo professor Bernardo Kucinski e defendida em novembro de 2009 na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP.
Paula afirma que essa financeirização começou a ficar evidente já em 1990, quando os profissionais do mercado financeiro passaram a ser as principais fontes nos cadernos de economia. Entre eles, estão: operador de mercado de ações, banqueiros, economistas de bancos, FMI e Banco Mundial. Fontes do mercado financeiro predominaram em 73,25% das 2340 notícias lidas
Complementar a esse fato, a pesquisa mostrou que esses profissionais, a partir de 1992, deixaram de aparecer exclusivamente em matérias sobre investimentos e passaram a influenciar nas ações do governo, conquistando espaço na opinião de temas de política econômica.
Dez anos depois, no primeiro semestre de 2002, segundo a pesquisa, eles já representavam 52,2% das fontes consultadas pela Folha e o Estadão.
A jornalista destaca que o próprio contexto da época propiciou isso, com o Consenso de Washington – conjunto de medidas econômicas formuladas em 1989, em Washington, famosa por introduzir o receituário neoliberal do FMI – e com a adoção de um modelo econômico neoliberal por parte do governo brasileiro.
Devido aos jornais reservarem espaço privilegiado ao governo, eles acabam absorvendo a visão econômica deste, como explica Paula: “Se você considerar matérias do alto de página, onde estão as principais matérias dos jornais, quem são as principais fontes? O governo. Você tem o governo trazendo para o noticiário os temas de interesse dos bancos”.
Capacitação
A pesquisa mostra que outro fator que influenciou a financeirização dos jornais é o esforço que o mercado financeiro fez para expandir sua influência nos meios de comunicação. “O mercado financeiro se capacitou comunicacionalmente para ser enxergado pelos jornalistas como a grande voz em termos do que é bom para a economia do País”, diz Paula.
Os bancos se capacitaram investindo em assessoria de imprensa e em media training – treinamento dado em empresas para saber como se comunicar com os órgãos de imprensa –e enviando freqüentemente relatórios aos jornalistas.
Paula lembra que, com a redemocratização no País, após 1989, os bancos buscam “ganhar destaque na sociedade”, diz a jornalista. Uma das formas mais eficaz para atingir essa meta foi com os bancos levando seu papel e seu ponto de vista à imprensa.
Paula recorda que na década de 1980 a grande imprensa ainda dava considerável destaque às indústrias e, ainda que em menor grau, aos sindicalistas. Essas e outras vozes foram sobrepostas pelo mercado financeiro na década de 1990.
Na opinião da jornalista, isso causou somente prejuízos para o jornalismo econômico. “Com a financeirização do noticiário, não vejo nada de positivo em um jornalismo que se vende a uma idéia”, justifica Paula. E completa:
“A imprensa tem papel democrático a exercer no mundo. Esse papel democrático implica, entre outras coisas, dar vozes a diferentes autores sociais. Se você tem um jornalismo financeirizado, quer dizer, se você tem apenas um grupo falando em nome de toda a sociedade, você foge desse caráter democrático”.
Pesquisa
Paula analisou, respectivamente, 1340 e 1000 notícias dos cadernos de economia do Estadão e da Folha. As notícias, que são do período de 1989 a 2002, não foram lidas de modo a comparar o conteúdo de cada jornal, mas somente para quantificar a presença das fontes e temas relacionados ao mercado financeiro.
Da amostra de 2340 notícias, em 73,25% predominavam fontes do setor financeiro.
Além disso, a jornalista complementou seu trabalho com 10 entrevistas, que incluem economistas do mercado financeiro, jornalistas de redação, acadêmicos e banqueiros. As entrevistas serviram para estabelecer a relação entre os dados obtidos e o comportamento das organizações.
Por Felipe Maeda Camargo
pulitipaula@hotmail.com
Copy e edição - Flavio Deckes
17.1.10
A Crise Global Explicada

explicar
a crise?
Pelo consumismo desenfreado que levou a sociedade americana a contrair dívidas várias vezes acima de sua capacidade de pagamento?
Pela ganância dos bancos, que buscaram ganhos a qualquer preço?
Pela omissão das autoridades monetárias, que deixaram a bolha de crédito se expandir e não acompanharam com a atenção devida o que acontecia nos mercados?
Pela nova etapa da globalização, surgida no bojo do desenvolvimento tecnológico, que permitiu ao dinheiro rodar o mundo sem barreiras, tornando obsoleta qualquer forma de controle? - Revista Wired
Opiniões
Noam Chomsky - Linguista e filósofo
A socialização dos custos e dos riscos, com a privatização dos lucros, é uma característica básica da economia capitalista
O fascismo foi derrubado, o bolchevismo foi derrubado e o corporativismo também pode ser.
Grande parte da economia que se diz capitalista depende profundamente de um setor estatal dinâmico no que se refere à inovação, ao desenvolvimento e outras formas de socialização de riscos e custos.
As raízes da crise atual foram plantadas na década de 70, com o fracasso do sistema de Bretton Woods, no pós guerra, com a financeirização da economia e a movimentação contra qualquer regulamentação, baseadas em dogmas quase religiosos, a respeito da "eficiência dos mercados".
Transações não levaram em conta as consequências. No caso das grandes financeiras, isso levou a um grande menosprezo pelos riscos - o risco sistêmico foi ignorado.
Desde o fim do sistema de Bretton Woods houve repetidas crises financeiras, mas elas se deram em países pobres e portanto não importavam, na verdade ofereciam às corporações americanas uma chance de adquirir ativos a preços baixos.
A crise atual é importante porque afeta os ricos e os poderosos e é muito difícil de estancar. Ninguém conhece a profundidade da crise.
E ninguém que conheça história econômica se surpreenderá com o fato de que as medidas que estão sendo tomadas pelos ricos para resolver o problema de suas próprias crises são o oposto das ditadas aos pobres quando estes enfrentavam uma crise.
Operações de ajuda são muito comuns, não apenas no sistema financeiro, mas também no industrial. As novidades de hoje se devem apenas à escala do desastre.
A alternativa a uma política que faz o público subsidiar os ricos e poderosos seria a democratização da sociedade e da economia.
Mas isso exigiria uma ampla compreesão do público e um ativismo que hoje é escassamente visível no mundo.
Ignacy Sachs - economista
Agora atravessamos um momento histórico. Em 80 anos, a humanidade foi chamada três vezes a se debruçar sobre a equação qual Estado para qual modelo de desenvolvimento. A primeira vez foi a partir da crise de 1929. Tivemos como resultado o socialismo, o nazismo, o New Deal rooseveltiano.
A segunda ocasião aconteceu no fim da II Guerra. Naquele momento formou-se um consenso em torno de três idéias-força: um Estado pró-ativo no campo econômico e social, o pleno emprego como objetivo e valorização do planejamento, pilares de sustentação do welfare-state, o estado de bem-estar e previdência, como formulou Keynes.
O choque entre dois sistemas políticos levou o capitalismo a se reformar, especialmente pela ascenção do socialismo.
Ou seja, o sistema entrou numa fase de crescimento rápido, impulsionado pelos processos de reconstrução abertos com o fim da guerra, pelo Plano Marchall, isso entre 45 e 75. O que marca a mudança de paradigma nos anos 70? O desencanto com o socialismo.
Francis Fukuyama - economista e filósofo
Acabou o movimento que há 30 anos prega a não-intervenção no mercado. Agora começa uma nova fase com mais intervenções do Estado.
O que acho interessante nesta crise é que desta vez foi o mal gerenciamento nos EUA que a alavancou. Eu fiquei muito surpreso e não poderia imaginar que Wall Street sofreria esse colapso total.
Não sei o que vai acontecer no resto do mundo, mas acho que os EUA estão caminhando para uma recessão bem longa, porque passamos os últimos 30 anos gastando mais do que tínhamos, especialmente nos últimos oito anos.
Será muito difícil recomeçar o processo de crescimento com toda essa dívida. E isso vai ter um impacto no resto do mundo, porque os EUA serviram como o motor do consumo mundial.
É o fim do reaganismo, não do capitalismo, de um movimento que há 30 anos prega a não intervenção no mercado. Não é o fim do capitalismo, mas um movimento pendular geracional nas políticas e nas idéias.
Agora vamos começar uma nova fase, com mais intervenção do Estado. De novo, não é o fim do capitalismo, é só mais um ciclo da economia e da história.
Alain Touraine - sociólogo
Não acredito que vivemos apenas uma crise profunda, mas o fim de uma época, que passou por um grande movimento de desenvolvimento.
Mais rapidamente do que imaginávamos, tudo acabou tendo aspectos também negativos.
A partir de 71 houve o abandono dos princípios da Conferência de Bretton Woods, e em 73 e 74 a primeira grande crise de petróleo, quando assistimos todos esses sistemas desaparecerem, substituídos pelo neoliberalismo que obteve um triunfo quase imediato. Neste momento, trata-se também do chamado "liberalismo extremo".
Agora, ao contrário, assistimos uma volta a Keynes, o fim dessa confiança ilimitada no valor dos mercados. A palavra de ordem era a desregulamentação, agora voltamos a ter como palavra de ordem a regulamentação, mas não na mesma forma anterior.
Acredito que haverá uma grande mudança de geração de altos executivos de bancos e de seguradoras. Será uma vassourada brutal nos aproveitadores do sistema.
A longo prazo, outras transformações parecem estar sendo aceleradas. A primeira é que o Ocidente, até então o centro mais forte da economia mundial, isto é, uma parte da Europa e os EUA, cedeu lugar à China.
Com os EUA em recessão, a influência chinesa não cessa de aumentar, o que não é ocasional, pois se desenvolve a longo prazo. Os chineses podem paralisar a economia americana simplesmente apertando um botão mesmo que não possam ir longe, pois são seu melhor cliente.
Nouriel Roubine - professor
É comum que se compare a crise atual com a Grande Depressão dos anos 30, mas o termo de comparação deve ser a década perdida do Japão nos anos 90.
Essa crise é mais financeira do que a que levou à Grande Depressão, embora as consequências econômicas sejam igualmente severas, com o colapso dos bancos e a queda nos números de emprego.
No Japão, houve uma grave crise após o estouro da bolha imobiliária, e a estagnação durou muitos anos.
Porém, um ponto semelhante da crise com a de 30 é o protecionismo que essa insegurança causa.
Começam a aparecer indícios de que o próximo setor a sofrer fortemente com a crise é o de cartões de crédito. Num cenário recessivo, as pessoas perdem seus empregos e simplesmente param de pagar as contas.
Falei recentemente sobre a falência do modelo anglo-saxão e isso gerou polêmica. Acredito muito na economia de mercado, que é o melhor modelo econômico possível.
O governo deve ser responsável por fornecer educação, saúde, bens públicos e regular os mercados em uma medida adequada.
O modelo americano, especificamente, demonstrou problemas graves, especialmente no aspecto da regulamentação. Então minha crítica não é ao capitalismo, nem à economia de mercado, mas a uma versão particular disso.
O bom sinal é que já há um reconhecimento dos erros na atual administração. O governo está intervindo na economia, tentando encontrar o equilíbrio entre nem muita nem pouca interferência.
A discussão não é mais ideológica, é sobre fazer a coisa certa. Por exemplo, a estatização temporária de bancos foi uma experiência bem sucedida em vários países e há lições a serem aprendidas sobre o que funciona ou não.
O que já ficou claro é que a atual abordagem do problema nos EUA não tem funcionado.
Minhas previsões eram tachadas de pessimistas e catastróficas, mas se mostraram realistas. O cenário está pior do que eu havia previsto.
Podemos lembrar que por muitos meses os governos tiveram uma postura de negação do tamanho do problema, dizendo que ele não era tão grave, que tudo estava sob controle, que era possível esperar um pouco mais para o mercado se curar.
John Gray - professor de economia
A atual convulsão dos mercados mundiais é mais do que uma crise econômica, embora de enormes dimensões.
É um sinal de que o modelo de globalização promovido pelos EUA nos 20 anos depois do colapso comunista está se desintegrando.
Nos dias de grande otimismo que se seguiram à queda do Muro de Berlim, e até os últimos meses do ano passado, muitos estavam absolutamente confiantes de que o futuro veria o avanço constante do capitalismo de estilo americano.
Surgiu uma série de grandiosas teorias - o fim da história, a ascensão do mercado como Estado, o boom prolongado, a grande moderação e o mundo nivelado -são algumas das mais conhecidas, expressando a convicção predominante de que a globalização disseminava livres mercados pelo mundo.
Entretanto, havia muitos sinais de que a história se deslocava em outra direção.
Muito antes do colapso soviético, a China desencadeara o maior e mais rápido processo de industrialização da história, sob os auspícios de um tipo de capitalismo de Estado, no qual o governo detinha o controle das commanding heights, as instituições financeiras que determinam o desenvolvimento de um país.
Na Rússia, o planejamento central entrou em colapso com o regime soviético, mas, depois de um período de quase anarquia, surgiu um capitalismo baseado na exploração das matérias-primas, controlado pelas oligarquias e por elementos do serviço secreto, em lugar de uma economia de mercado segundo a linha americana
ou ocidental. As economias emergentes da Índia, do Sudeste Asiático e da América Latina, expandiram-se rapidamente, mas conseguiram isso tomando caminhos próprios, diferentes, e não seguindo os modelos desenvolvidos em outras partes do mundo.
Essa diversidade devia ser prevista. A globalização nunca promoveu um modelo econômico único. No final do século 19, ela alimentou vários tipos de capitalismo: uma versão do livre mercado na Inglaterra, o protecionismo nos EUA e as variedades russa e alemã, nas quais o Estado tinha uma função de direção.
A globalização, no fundo, não passa de uma industrialização no plano mundial, impulsionada por novos meios de comunicação, um desdobramento que deverá produzir resultados divergentes em diferentes partes do mundo.
A concepção de que a globalização seja um movimento voltado para um sistema econômico mundial moldado segundo o capitalismo anglo-americano é uma ilusão popular, mas pôde florescer enquanto o boom perdurou.
Os acontecimentos dos últimos meses acabaram com a idéia de que o capitalismo desregulamentado, dirigido pelo mundo das finanças dos últimos anos, era um modelo universal de desenvolvimento econômico.
O fato é que a filosofia do livre mercado foi totalmente desacreditada. Seria inteiramente equivocado imaginar que tenha surgido uma alternativa confiável capaz de orientar uma resposta global coordenada a essa crise.
Hoje somente a China tem a combinação necessária de mercados capitalistas e uma economia planificada, e, ironicamente, é para a China que o Ocidente está se voltando na esperança de salvar o modelo de livre mercado da globalização.
Este não é o fim do capitalismo, do livre mercado ou da globalização. O que estamos testemunhando agora é o início incerto de um novo período da história, no qual o modelo anglo-americano é apenas uma das várias versões de capitalismo que conformarão o mundo.
Joseph Stiglitz - Nobel de Economia
Vamos recordar o que causou esses apuros.
Os bancos se meteram, e meteram nossa economia, em encrencas ao se alavancar excessivamente - o que significa que eles usaram relativamente pouco capital próprio e captaram empréstimos substanciais para comprar ativos imobiliários de altíssimo risco.
No processo, usaram instrumentos de alta complexidade, como obrigações de dívida colateralizadas.
A perspectiva de alta compensação incentivou os administradores a serem míopes e assumirem riscos excessivos em vez de fazerem empréstimos prudentes com o dinheiro.
Os bancos cometeram todos esses erros sem ninguém saber, em parte porque muita coisa do que estavam fazendo era financiamento "fora do balanço".
Pelo consumismo desenfreado que levou a sociedade americana a contrair dívidas várias vezes acima de sua capacidade de pagamento?
Pela ganância dos bancos, que buscaram ganhos a qualquer preço?
Pela omissão das autoridades monetárias, que deixaram a bolha de crédito se expandir e não acompanharam com a atenção devida o que acontecia nos mercados?
Pela nova etapa da globalização, surgida no bojo do desenvolvimento tecnológico, que permitiu ao dinheiro rodar o mundo sem barreiras, tornando obsoleta qualquer forma de controle? - Revista Wired
Opiniões
Noam Chomsky - Linguista e filósofo
A socialização dos custos e dos riscos, com a privatização dos lucros, é uma característica básica da economia capitalista
O fascismo foi derrubado, o bolchevismo foi derrubado e o corporativismo também pode ser.
Grande parte da economia que se diz capitalista depende profundamente de um setor estatal dinâmico no que se refere à inovação, ao desenvolvimento e outras formas de socialização de riscos e custos.
As raízes da crise atual foram plantadas na década de 70, com o fracasso do sistema de Bretton Woods, no pós guerra, com a financeirização da economia e a movimentação contra qualquer regulamentação, baseadas em dogmas quase religiosos, a respeito da "eficiência dos mercados".
Transações não levaram em conta as consequências. No caso das grandes financeiras, isso levou a um grande menosprezo pelos riscos - o risco sistêmico foi ignorado.
Desde o fim do sistema de Bretton Woods houve repetidas crises financeiras, mas elas se deram em países pobres e portanto não importavam, na verdade ofereciam às corporações americanas uma chance de adquirir ativos a preços baixos.
A crise atual é importante porque afeta os ricos e os poderosos e é muito difícil de estancar. Ninguém conhece a profundidade da crise.
E ninguém que conheça história econômica se surpreenderá com o fato de que as medidas que estão sendo tomadas pelos ricos para resolver o problema de suas próprias crises são o oposto das ditadas aos pobres quando estes enfrentavam uma crise.
Operações de ajuda são muito comuns, não apenas no sistema financeiro, mas também no industrial. As novidades de hoje se devem apenas à escala do desastre.
A alternativa a uma política que faz o público subsidiar os ricos e poderosos seria a democratização da sociedade e da economia.
Mas isso exigiria uma ampla compreesão do público e um ativismo que hoje é escassamente visível no mundo.
Ignacy Sachs - economista
Agora atravessamos um momento histórico. Em 80 anos, a humanidade foi chamada três vezes a se debruçar sobre a equação qual Estado para qual modelo de desenvolvimento. A primeira vez foi a partir da crise de 1929. Tivemos como resultado o socialismo, o nazismo, o New Deal rooseveltiano.
A segunda ocasião aconteceu no fim da II Guerra. Naquele momento formou-se um consenso em torno de três idéias-força: um Estado pró-ativo no campo econômico e social, o pleno emprego como objetivo e valorização do planejamento, pilares de sustentação do welfare-state, o estado de bem-estar e previdência, como formulou Keynes.
O choque entre dois sistemas políticos levou o capitalismo a se reformar, especialmente pela ascenção do socialismo.
Ou seja, o sistema entrou numa fase de crescimento rápido, impulsionado pelos processos de reconstrução abertos com o fim da guerra, pelo Plano Marchall, isso entre 45 e 75. O que marca a mudança de paradigma nos anos 70? O desencanto com o socialismo.
Francis Fukuyama - economista e filósofo
Acabou o movimento que há 30 anos prega a não-intervenção no mercado. Agora começa uma nova fase com mais intervenções do Estado.
O que acho interessante nesta crise é que desta vez foi o mal gerenciamento nos EUA que a alavancou. Eu fiquei muito surpreso e não poderia imaginar que Wall Street sofreria esse colapso total.
Não sei o que vai acontecer no resto do mundo, mas acho que os EUA estão caminhando para uma recessão bem longa, porque passamos os últimos 30 anos gastando mais do que tínhamos, especialmente nos últimos oito anos.
Será muito difícil recomeçar o processo de crescimento com toda essa dívida. E isso vai ter um impacto no resto do mundo, porque os EUA serviram como o motor do consumo mundial.
É o fim do reaganismo, não do capitalismo, de um movimento que há 30 anos prega a não intervenção no mercado. Não é o fim do capitalismo, mas um movimento pendular geracional nas políticas e nas idéias.
Agora vamos começar uma nova fase, com mais intervenção do Estado. De novo, não é o fim do capitalismo, é só mais um ciclo da economia e da história.
Alain Touraine - sociólogo
Não acredito que vivemos apenas uma crise profunda, mas o fim de uma época, que passou por um grande movimento de desenvolvimento.
Mais rapidamente do que imaginávamos, tudo acabou tendo aspectos também negativos.
A partir de 71 houve o abandono dos princípios da Conferência de Bretton Woods, e em 73 e 74 a primeira grande crise de petróleo, quando assistimos todos esses sistemas desaparecerem, substituídos pelo neoliberalismo que obteve um triunfo quase imediato. Neste momento, trata-se também do chamado "liberalismo extremo".
Agora, ao contrário, assistimos uma volta a Keynes, o fim dessa confiança ilimitada no valor dos mercados. A palavra de ordem era a desregulamentação, agora voltamos a ter como palavra de ordem a regulamentação, mas não na mesma forma anterior.
Acredito que haverá uma grande mudança de geração de altos executivos de bancos e de seguradoras. Será uma vassourada brutal nos aproveitadores do sistema.
A longo prazo, outras transformações parecem estar sendo aceleradas. A primeira é que o Ocidente, até então o centro mais forte da economia mundial, isto é, uma parte da Europa e os EUA, cedeu lugar à China.
Com os EUA em recessão, a influência chinesa não cessa de aumentar, o que não é ocasional, pois se desenvolve a longo prazo. Os chineses podem paralisar a economia americana simplesmente apertando um botão mesmo que não possam ir longe, pois são seu melhor cliente.
Nouriel Roubine - professor
É comum que se compare a crise atual com a Grande Depressão dos anos 30, mas o termo de comparação deve ser a década perdida do Japão nos anos 90.
Essa crise é mais financeira do que a que levou à Grande Depressão, embora as consequências econômicas sejam igualmente severas, com o colapso dos bancos e a queda nos números de emprego.
No Japão, houve uma grave crise após o estouro da bolha imobiliária, e a estagnação durou muitos anos.
Porém, um ponto semelhante da crise com a de 30 é o protecionismo que essa insegurança causa.
Começam a aparecer indícios de que o próximo setor a sofrer fortemente com a crise é o de cartões de crédito. Num cenário recessivo, as pessoas perdem seus empregos e simplesmente param de pagar as contas.
Falei recentemente sobre a falência do modelo anglo-saxão e isso gerou polêmica. Acredito muito na economia de mercado, que é o melhor modelo econômico possível.
O governo deve ser responsável por fornecer educação, saúde, bens públicos e regular os mercados em uma medida adequada.
O modelo americano, especificamente, demonstrou problemas graves, especialmente no aspecto da regulamentação. Então minha crítica não é ao capitalismo, nem à economia de mercado, mas a uma versão particular disso.
O bom sinal é que já há um reconhecimento dos erros na atual administração. O governo está intervindo na economia, tentando encontrar o equilíbrio entre nem muita nem pouca interferência.
A discussão não é mais ideológica, é sobre fazer a coisa certa. Por exemplo, a estatização temporária de bancos foi uma experiência bem sucedida em vários países e há lições a serem aprendidas sobre o que funciona ou não.
O que já ficou claro é que a atual abordagem do problema nos EUA não tem funcionado.
Minhas previsões eram tachadas de pessimistas e catastróficas, mas se mostraram realistas. O cenário está pior do que eu havia previsto.
Podemos lembrar que por muitos meses os governos tiveram uma postura de negação do tamanho do problema, dizendo que ele não era tão grave, que tudo estava sob controle, que era possível esperar um pouco mais para o mercado se curar.
John Gray - professor de economia
A atual convulsão dos mercados mundiais é mais do que uma crise econômica, embora de enormes dimensões.
É um sinal de que o modelo de globalização promovido pelos EUA nos 20 anos depois do colapso comunista está se desintegrando.
Nos dias de grande otimismo que se seguiram à queda do Muro de Berlim, e até os últimos meses do ano passado, muitos estavam absolutamente confiantes de que o futuro veria o avanço constante do capitalismo de estilo americano.
Surgiu uma série de grandiosas teorias - o fim da história, a ascensão do mercado como Estado, o boom prolongado, a grande moderação e o mundo nivelado -são algumas das mais conhecidas, expressando a convicção predominante de que a globalização disseminava livres mercados pelo mundo.
Entretanto, havia muitos sinais de que a história se deslocava em outra direção.
Muito antes do colapso soviético, a China desencadeara o maior e mais rápido processo de industrialização da história, sob os auspícios de um tipo de capitalismo de Estado, no qual o governo detinha o controle das commanding heights, as instituições financeiras que determinam o desenvolvimento de um país.
Na Rússia, o planejamento central entrou em colapso com o regime soviético, mas, depois de um período de quase anarquia, surgiu um capitalismo baseado na exploração das matérias-primas, controlado pelas oligarquias e por elementos do serviço secreto, em lugar de uma economia de mercado segundo a linha americana
ou ocidental. As economias emergentes da Índia, do Sudeste Asiático e da América Latina, expandiram-se rapidamente, mas conseguiram isso tomando caminhos próprios, diferentes, e não seguindo os modelos desenvolvidos em outras partes do mundo.
Essa diversidade devia ser prevista. A globalização nunca promoveu um modelo econômico único. No final do século 19, ela alimentou vários tipos de capitalismo: uma versão do livre mercado na Inglaterra, o protecionismo nos EUA e as variedades russa e alemã, nas quais o Estado tinha uma função de direção.
A globalização, no fundo, não passa de uma industrialização no plano mundial, impulsionada por novos meios de comunicação, um desdobramento que deverá produzir resultados divergentes em diferentes partes do mundo.
A concepção de que a globalização seja um movimento voltado para um sistema econômico mundial moldado segundo o capitalismo anglo-americano é uma ilusão popular, mas pôde florescer enquanto o boom perdurou.
Os acontecimentos dos últimos meses acabaram com a idéia de que o capitalismo desregulamentado, dirigido pelo mundo das finanças dos últimos anos, era um modelo universal de desenvolvimento econômico.
O fato é que a filosofia do livre mercado foi totalmente desacreditada. Seria inteiramente equivocado imaginar que tenha surgido uma alternativa confiável capaz de orientar uma resposta global coordenada a essa crise.
Hoje somente a China tem a combinação necessária de mercados capitalistas e uma economia planificada, e, ironicamente, é para a China que o Ocidente está se voltando na esperança de salvar o modelo de livre mercado da globalização.
Este não é o fim do capitalismo, do livre mercado ou da globalização. O que estamos testemunhando agora é o início incerto de um novo período da história, no qual o modelo anglo-americano é apenas uma das várias versões de capitalismo que conformarão o mundo.
Joseph Stiglitz - Nobel de Economia
Vamos recordar o que causou esses apuros.
Os bancos se meteram, e meteram nossa economia, em encrencas ao se alavancar excessivamente - o que significa que eles usaram relativamente pouco capital próprio e captaram empréstimos substanciais para comprar ativos imobiliários de altíssimo risco.
No processo, usaram instrumentos de alta complexidade, como obrigações de dívida colateralizadas.
A perspectiva de alta compensação incentivou os administradores a serem míopes e assumirem riscos excessivos em vez de fazerem empréstimos prudentes com o dinheiro.
Os bancos cometeram todos esses erros sem ninguém saber, em parte porque muita coisa do que estavam fazendo era financiamento "fora do balanço".
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